Em 1972, ao colherem uma amostra de sangue a uma mulher grávida, os médicos repararam num pormenor desconcertante: os seus glóbulos vermelhos não exibiam uma molécula de superfície que, até então, estava presente em todos os outros glóbulos vermelhos conhecidos.
Meio século depois, essa ausência molecular acabaria por conduzir investigadores do Reino Unido e de Israel à descrição de um novo sistema de grupos sanguíneos em humanos. Em setembro, a equipa publicou o estudo que formaliza a descoberta.
Porque os antigénios e os grupos sanguíneos importam
Apesar de a maioria das pessoas estar mais habituada ao sistema ABO e ao fator Rh (a parte do “positivo” ou “negativo”), existem, na realidade, muitos sistemas de grupos sanguíneos, definidos pela grande diversidade de proteínas e açúcares na superfície das células do sangue.
Estas moléculas antigénicas servem, entre outras funções, como marcadores de identificação que ajudam o organismo a distinguir o “próprio” do que pode ser potencialmente perigoso.
Quando estes marcadores não coincidem numa transfusão de sangue, um procedimento que salva vidas pode desencadear reações graves ou, em casos extremos, tornar-se fatal.
A maior parte dos principais grupos sanguíneos foi identificada no início do século XX. Muitos dos que foram descritos mais recentemente - como o sistema sanguíneo Er, apresentado por investigadores em 2022 - afetam apenas um número reduzido de pessoas. O novo grupo segue o mesmo padrão.
Como foi identificado o sistema de grupo sanguíneo MAL
Segundo a hematologista Louise Tilley, do Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido, o caminho até à confirmação foi lento e exigente: “Representa uma enorme conquista e o culminar de um longo esforço de equipa, finalmente estabelecer este novo sistema de grupos sanguíneos e poder oferecer os melhores cuidados a doentes raros, mas importantes.” Tilley dedicou quase 20 anos a investigar pessoalmente esta particularidade.
A dificuldade principal estava no acesso aos casos: “O trabalho foi difícil porque os casos genéticos são muito raros”, explicou Tilley.
Trabalhos anteriores tinham mostrado que mais de 99,9 por cento das pessoas possuem o antigénio AnWj - precisamente o que faltava no sangue da doente de 1972. Esse antigénio encontra-se numa proteína associada à mielina e aos linfócitos, o que levou os autores a batizar o novo sistema como grupo sanguíneo MAL.
O que significa ser AnWj-negativo
Quando alguém herda uma versão mutada de ambas as cópias do gene MAL, o resultado é um tipo sanguíneo AnWj-negativo, como no caso da mulher grávida de 1972. Ainda assim, Tilley e colegas identificaram três doentes com este tipo sanguíneo raro sem essa mutação, o que indica que, por vezes, perturbações do sangue também podem suprimir a expressão do antigénio.
Para Tim Satchwell, biólogo celular da University of the West of England, a identificação foi particularmente desafiante devido às características da própria proteína: “MAL é uma proteína muito pequena com algumas propriedades interessantes, o que dificultou a sua identificação e significou que tivemos de seguir várias linhas de investigação para acumular a prova necessária para estabelecer este sistema de grupos sanguíneos.”
Após décadas de trabalho, a equipa testou se estava perante o gene certo introduzindo o gene MAL normal em células sanguíneas AnWj-negativas. Com isso, o antigénio AnWj passou a surgir nessas células.
Sabe-se que a proteína MAL desempenha um papel vital na estabilidade das membranas celulares e na ajuda ao transporte celular. Além disso, estudos anteriores indicaram que o AnWj não está presente em recém-nascidos, surgindo apenas algum tempo após o nascimento.
Curiosamente, todos os doentes AnWj-negativos incluídos no estudo partilhavam a mesma mutação. No entanto, não foram detetadas outras anomalias celulares nem doenças associadas a essa alteração genética.
Agora que os investigadores identificaram os marcadores genéticos por detrás da mutação MAL, torna-se possível testar os doentes para determinar se o tipo sanguíneo MAL negativo é hereditário ou se resulta de supressão - o que pode sinalizar outro problema médico subjacente.
Estas raridades nos grupos sanguíneos podem ter consequências devastadoras para os doentes; por isso, quanto mais forem compreendidas, mais vidas poderão ser salvas.
Este trabalho foi publicado na revista Blood.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em setembro de 2024.
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