Bombeiros e moradores continuam vigilantes perante reacendimentos persistentes também em Oliveira de Frades, Tondela e Águeda. Ninguém baixa a guarda, com receio de que as chamas regressem às aldeias.
Depois de mais de 1000 operacionais, apoiados por meios terrestres e aéreos, conseguirem travar o incêndio que começou por volta das 3 horas de quinta-feira em Tourelhe, Vouzela - e que se estendeu aos concelhos de Oliveira de Frades, Tondela e Águeda -, o fogo acabou por causar feridos, danos materiais e consumir 13 mil hectares de floresta. Apesar da melhoria, o domingo foi passado em prevenção, para impedir que as múltiplas reativações ganhassem dimensão. O incêndio foi declarado dominado às 12.40 horas, mas, pelas 19 horas, permaneciam no terreno 1121 operacionais, com seis meios aéreos e 375 veículos.
"Vemos a morte à frente"
Na noite de sábado, a encosta da serra do Caramulo registou várias frentes ativas e o fogo aproximou-se de Daires, em S. João do Monte, Tondela. A localidade passou a integrar a lista de lugares onde se viveram momentos de grande tensão. Já na sexta-feira, tinha sido Matadegas, em Tondela, a ver as chamas chegarem em três frentes. As habitações de primeira residência foram poupadas, mas desde então “ninguém dorme”, relata Carlos Amaral, advogado de 45 anos, que regressou à terra natal para proteger bens de familiares e amigos.
"É daquelas situações que não se deseja ao pior inimigo. É um inferno na terra. Situações em que vemos a morte à frente", e é preciso gerir bem o que fazer, para se evitarem riscos desnecessários, mas também não se "perder tudo", disse este domingo Carlos Amaral ao JN.
Na sexta-feira, contabilizaram-se dois feridos graves (um com queimaduras de segundo e terceiro grau, por tentar apagar o fogo, e outro que sofreu um traumatismo craniano ao cair de uma carrinha que transportava água), além de mais três feridos ligeiros.
Tal como acontece com a maioria da população da zona, Carlos Amaral não tem ido trabalhar e, amanhã, segunda-feira, deverá manter-se de prevenção. Desde quinta-feira, há pessoas que andam "de aldeia em aldeia a tentar ajudar" quem estava na frente do incêndio. "Somos poucos e, se não formos unidos, a coisa complica-se ainda mais", sublinha, acrescentando que o combate prolongado tem sido "extenuante".
Segundo Paulo Dinis, presidente de Junta de S. João do Monte, Tondela, ontem o cenário esteve "mais calma", embora se tenham verificado "alguns reacendimentos", que foram enfrentados "com brevidade para não evoluírem para situações piores". Confirmou ainda que têm estado "muitos meios no local". "Vamos continuar sobressaltados porque sabemos que está calmo, mas a qualquer momento a situação pode-se inverter. As pessoas estão ansiosas, já têm experiência de muitos anos deste tipo de incêndios. Isto leva-nos a estar sempre de alerta, o descanso é mínimo".
Também no terreno esteve uma "equipa exemplar" de espanhóis da Unidade Militar, que "veio ajudar", referiu Ricardo Loureiro, presidente da Junta de Guardão, Tondela, indicando que os operacionais ficaram alojados na vila do Caramulo.
O peso da Aldeia Segura
Ao longo dos últimos dias, houve "receio" e "momentos em que o fogo esteve para entrar na freguesia", mas o desfecho mais grave acabou por não se concretizar, contou Ricardo Loureiro. "Temos implementado em todas as aldeias da freguesia o Aldeia Segura, com oficiais de segurança, temos o levantamento de equipamentos disponíveis e a identificação de pessoas com pouca mobilidade", um trabalho que se revelou importante. "Estive no teatro de operações e, para quem não entende, parece um trabalho caótico, porque é muita gente, muitas forças, mas nota-se que a coordenação estava a acontecer", acrescentou.
Este domingo foram registadas cerca de uma centena de ocorrências, destacando-se uma na Póvoa de Lanhoso, que, pelas 19 horas, estava a ser combatida por 60 bombeiros, dois meios aéreos e 21 veículos. Em Vila Verde, encontravam-se 90 pessoas, três meios aéreos e 23 veículos. Às 20 horas de hoje, em todo o país, estavam 2165 operacionais no terreno, 680 meios terrestres e 21 meios aéreos.
Temperaturas baixam no litoral
Amanhã, segunda-feira, prevê-se uma descida das temperaturas no litoral, tendência que também se estende ao interior. A diminuição deverá ser mais significativa junto à costa, mantendo-se, ainda assim, tempo quente no interior, onde as máximas continuarão muito próximas dos 40ºC, de acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). As noites serão tropicais.
Para segunda-feira, o IPMA emitiu aviso vermelho devido ao tempo quente em Beja, Castelo Branco, Évora, Lisboa, Portalegre, Santarém e Setúbal.
A Direção-Geral da Saúde aconselha a população a permanecer em casa com portas e janelas fechadas e a colocar panos húmidos nas frestas. Deve também evitar-se o esforço físico e a exposição ao calor, beber água e manter a medicação consigo.
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