Os chefes de Estado e de Governo da NATO começam hoje, e por dois dias, a sua reunião na cidade histórica de Ancara, num enquadramento dominado por edifícios imponentes e a pouca distância do mausoléu de Mustafa Kemal Atatürk, símbolo fundador da Turquia moderna. É nesse espaço - entre a herança da república laica de Atatürk e a Turquia presidencial de Recep Tayyip Erdogan - que os aliados procuram definir os próximos passos de uma Aliança pressionada a investir mais na defesa, a acelerar a indústria militar, a manter o apoio à Ucrânia e a ganhar maior peso europeu sem perder a base transatlântica.
Cimeira da NATO em Ancara: mais despesa, indústria de defesa e apoio à Ucrânia
Em conversa prolongada com jornalistas, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, sustentou que a organização está a tornar-se "mais sustentável" ao diminuir a dependência dos Estados Unidos e ao inverter uma dinâmica que, na sua leitura, colocava em risco a viabilidade futura. "Eu diria que a NATO que conhecíamos há três, quatro ou cinco anos não era sustentável", disse, defendendo que os aliados europeus e o Canadá devem apresentar "planos claros, concretos e credíveis" para cumprir o objetivo de investir 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa e segurança até 2035.
Rutte considerou, ainda assim, que o movimento já em curso é significativo, assinalando que, neste momento, os aliados estão "a investir cerca de 4% do PIB em defesa e segurança". "Estamos agora a criar uma Aliança sustentável, em que os EUA sabem que se trata de um acordo justo. Estamos a gastar o mesmo que eles, a assumir mais responsabilidade pela defesa convencional da Europa", declarou.
Redistribuir papéis
A reconfiguração em curso, frisou o secretário-geral, não corresponde a um afastamento norte-americano, mas antes a uma redistribuição interna de tarefas e encargos. No desenho descrito por Rutte, Washington mantém o "guarda-chuva nuclear" e um apoio convencional considerado decisivo, ao passo que os aliados europeus e o Canadá passam a carregar uma parte mais pesada da defesa convencional. Para o líder da NATO, "reequilibrar" a relação é um passo indispensável para garantir que os EUA vejam a Aliança como um compromisso sólido e duradouro.
Meta dos 5% do PIB até 2035 e o fator Trump
O antigo primeiro-ministro neerlandês ligou este "reequilíbrio" do esforço financeiro não apenas à guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas também à pressão exercida por Donald Trump para que os aliados aumentassem o investimento. "Pode argumentar-se que ele é o primeiro presidente desde Eisenhower que conseguiu chegar a esta situação, em que europeus e canadianos vão gastar o mesmo que os norte-americanos", afirmou.
Da despesa à capacidade militar: da NATO aos drones e aos mísseis
Rutte avisou que gastar mais só faz sentido se esse dinheiro se traduzir em meios concretos no terreno, defendendo a necessidade de transformar "os planos de defesa em drones e o dinheiro em mísseis e intercetores". Para atingir esse resultado, enumerou prioridades: "colocar a inovação no centro, ultrapassar a fragmentação das indústrias nacionais de defesa e cortar burocracia".
Ucrânia será tema central
À margem da cimeira, o secretário-geral antecipou que, durante o Fórum da Indústria Militar, deverá ser anunciado um pacote de "dezenas de milhares de milhões de euros" em equipamentos de defesa.
A Ucrânia continuará no centro das discussões, com Mark Rutte a insistir num apoio sustentado - em particular na defesa aérea - para responder aos ataques russos com drones e mísseis. "Todos os aliados têm de assumir a sua parte para que o nosso apoio à Ucrânia continue a fluir". Na preparação para a reunião, o secretário-geral classificou a Rússia como uma ameaça "a longo prazo" à segurança euro-atlântica e defendeu que a NATO deve manter a pressão sobre Moscovo, mesmo no cenário de um eventual fim da guerra.
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