O presidente da República voltou a chamar a atenção para a “invisibilidade” dos investigadores portugueses, um desafio que, na sua perspetiva, tem implicações “democrático e estratégico”. No Porto, esta segunda-feira, António José Seguro esteve no i3S no ano em que a instituição assinala dez anos e defendeu um aumento do investimento na ciência fundamental.
António José Seguro visitou esta segunda-feira o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), da Universidade do Porto, numa deslocação que descreveu como “acelerada, mas muito significativa”. Depois de passar por três laboratórios e duas plataformas científicas, o chefe de Estado sublinhou um ponto que quis deixar bem marcado: Portugal dispõe de “ativos científicos que poucas nações desta dimensão possuem”, mas falta ao país “a arquitetura que os torne visíveis”.
No Auditório Mariano Gago, cheio para a ocasião, Seguro lançou uma interrogação que disse acompanhar desde que começou “a percorrer o país, antes e depois da eleição”: “Porque é que Portugal tem ciência de referência internacional que a maioria dos portugueses não conhece?”. Para o presidente, essa realidade faz com que os investigadores ali presentes sejam “praticamente invisíveis” para o mesmo país ao qual dedicam, todos os dias, o seu trabalho.
Um problema "democrático e estratégico"
Na leitura do presidente, esta invisibilidade “não é apenas um problema de comunicação”. “É um problema democrático”, afirmou, salientando que “uma sociedade que não conhece as suas capacidades científicas não consegue fazer escolhas informadas sobre seu futuro”. E, acrescentou, é igualmente um tema estratégico, “porque a saúde não é apenas um direito”, mas “umas das maiores oportunidades do século”.
Seguro argumentou que o que está em falta não é o ecossistema científico - que já existe e “produz conhecimento de referência internacional” -, mas antes uma estrutura capaz de o tornar “visível, coerente e sustentável no tempo, independentemente dos ciclos políticos”, articulando investigação básica e clínica com universidades, hospitais e empresas.
No percurso pelos laboratórios de Imunologia, Cancro e Glicomedicina, de Regulação Imunitária e de Circuitos Neuronais e Esqueléticos, bem como pelas plataformas de histologia e microscopia eletrónica e de tecnologias bioquímicas e biofísicas, o presidente destacou aquilo que considerou ser a marca diferenciadora do i3S: uma investigação que “não começa no laboratório e fica no laboratório”, procurando antes “as distâncias mais curtas possíveis entre o conhecimento e a vida das pessoas”.
Houve ainda referência ao novo Centro de Excelência em Medicina Genómica. Sobre este tema, Seguro apontou que o atual Centro de Genética Preditiva e Preventiva do i3S já executa mais de 10 mil testes genéticos por ano, em articulação com o Serviço Nacional de Saúde, e considerou que ampliar essa capacidade constitui “um ativo nacional” para Portugal.
Dez anos de "excelência" e apelo ao financiamento
A visita presidencial aconteceu no ano em que o i3S comemora o seu décimo aniversário, depois de ter nascido da junção de três institutos de investigação da Universidade do Porto - o IBMC, o INEB e o IPATIMUP. O diretor, Cláudio Sunkel, evocou o caminho feito e anunciou o lançamento do primeiro centro de excelência em medicina genómica do país, com mais de 40 milhões de euros de financiamento europeu, nacional e privado, em parceria com o Laboratório Europeu de Biologia Molecular.
Sunkel usou também a ocasião para insistir no reforço do financiamento da ciência fundamental, alertando que, sem esse alicerce, “a inovação torna-se importada, dependente e tardia”. E resumiu a ideia com uma imagem: “Quando plantamos uma árvore, nem sempre sabemos o que nascerá ou quando dará frutos. Mas sabemos que sem esse gesto inicial não haverá floresta”.
Pedro Nuno Teixeira, reitor da Universidade do Porto, realizou aqui a sua primeira visita ao i3S enquanto reitor. Agradeceu a “honra” da presença do presidente da República, interpretando-a como um “voto de confiança no futuro” da instituição, e adiantou o objetivo de criar, até 2030, uma estrutura de laboratórios experimentais para apoiar empresas emergentes e projetos de empreendedorismo nas Ciências da Vida e da Saúde.
Pedro Duarte: "Uma ideia de futuro"
O presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, defendeu que “visitar o i3S não é apenas visitar um centro de investigação ou uma comunidade científica”, mas sim “visitar uma ideia de futuro”. O autarca lembrou o memorando assinado recentemente entre a Câmara, a Universidade do Porto e o Politécnico do Porto para lançar o PITS - Pólo Comunitário de Inovação e Tecnologia do Porto -, com o propósito de captar talento e investigação e acelerar a transferência de tecnologia para a economia regional.
Atualmente, o i3S reúne cerca de 800 investigadores, distribuídos por mais de 60 equipas, estruturadas em três programas científicos focados no cancro, nas doenças infecciosas e nas doenças neurológicas.
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