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Tesla FSD Supervised: primeira impressão em Amesterdão

Carro elétrico Tesla branco em exposição num salão moderno, com janelas amplas e bicicletas ao fundo.

O Tesla FSD Supervised destaca-se pela forma natural como conduz e, apesar de exigir vigilância constante do condutor, fica muito perto do ideal.


Amesterdão foi o palco do nosso primeiro contacto com o Tesla Full-Self Driving Supervised - e é difícil imaginar um cenário mais implacável. Entre ciclistas em número quase interminável e peões que, por vezes, parecem esquecer-se da diferença entre a estrada e o passeio, o sistema teve de lidar com um ecossistema urbano exigente do primeiro ao último metro.

Para este ensaio, utilizámos o novo Tesla Model Y Long Range Dual Motor. Ainda assim, a tecnologia não está reservada apenas aos modelos mais recentes. A Tesla afirma que os veículos novos já vêm preparados para receber o FSD Supervised e que alguns modelos de anos anteriores também o poderão usar via atualização de software, desde que tenham hardware compatível e se encontrem num país onde a funcionalidade esteja legalmente autorizada.

Portugal, para já, continua fora dessa lista. O percurso de aprovação na Europa arrancou nos Países Baixos - o primeiro país a dar luz verde ao FSD Supervised - e, entretanto, foi também adotado por Lituânia, Estónia, Dinamarca e Bélgica.

Quanto custa?

Nos mercados onde já está acessível, o FSD Supervised é disponibilizado através de um modelo de subscrição.

Para quem comprou um Tesla com Autopilot base, o acesso tem um custo de 99 euros por mês. Quem escolheu o Enhanced Autopilot paga 49 euros por mês. Já os clientes que, no passado, adquiriram o pacote FSD a pronto (quando a Tesla ainda permitia essa opção) não têm qualquer custo mensal adicional para o utilizar.

No entanto, essa compra integral deixou de estar disponível. Atualmente, a porta de entrada é a subscrição - com exceção de quem já tinha pago o pacote completo. É mais uma subscrição num mundo em que quase tudo se paga mensalmente, mas também é verdade que a compra a pronto não era propriamente acessível. Se subscrever e não ficar satisfeito, pode cancelar. Como sempre, há prós e contras.

O que é (e o que não é) o FSD Supervised

O FSD Supervised é um sistema avançado de assistência à condução. É capaz de seguir o trajeto definido na navegação, circular em ambiente urbano e fora dele, virar em cruzamentos, mudar de faixa, ajustar a velocidade ao tráfego, parar em semáforos, reconhecer passadeiras, gerir interações com peões e ciclistas, entre outras funções.

Apesar de conseguir conduzir, na prática, de forma totalmente autónoma em muitos momentos, não transforma o Tesla num veículo autónomo. A responsabilidade continua a ser do condutor, que deve manter-se atento e pronto a intervir. Ao volante, somos acompanhados continuamente por uma câmara, que permite ao sistema verificar se o condutor está em condições de assumir o controlo a qualquer instante.

Vê e ouve o que o rodeia

A Tesla mantém a aposta numa abordagem assente em visão - uma escolha que foi muito contestada, mas que começa a parecer a mais acertada. É uma tendência que tem puxado a indústria, com exemplos como a Volvo, que está a abandonar os radares Lidar e a seguir uma linha semelhante.

No caso do FSD Supervised, são usadas oito câmaras exteriores - as mesmas que o automóvel já utiliza para estacionamento, assistência à condução, visualização do que está à volta e perceção da distância a obstáculos.

Com estas câmaras, o carro consegue interpretar faixas de rodagem, veículos, peões, ciclistas, semáforos, sinalização, bermas, passeios, obstáculos e comportamentos imprevisíveis.

Além da visão, o sistema recorre também a microfones para ler certos cenários. Um exemplo é a identificação de veículos em marcha de emergência. Se, através de sinais sonoros, detetar uma ambulância, um carro de polícia ou um veículo de bombeiros em urgência, consegue cruzar áudio e imagem para perceber a direção de aproximação, encostar, abrir passagem e depois retomar a viagem.

Por trás desta capacidade está uma vantagem difícil de replicar: escala. A frota global da Tesla percorre mais de 320 milhões de quilómetros por dia, gerando dados reais de condução, anónimos e agregados, que alimentam o treino dos modelos de inteligência artificial. Na prática, cada Tesla em circulação ajuda a refinar o sistema. Cada quilómetro feito por humanos pode, mais tarde, tornar o carro melhor a conduzir.

Uma aprovação difícil

A chegada do FSD Supervised aos Países Baixos não foi rápida nem simples. A autoridade neerlandesa RDW avaliou o sistema durante mais de 3000 horas, em pista e em estrada pública, incluindo tráfego urbano complexo, diferentes tipologias de estrada e condições meteorológicas variadas. O processo incorporou ainda dados de 1,8 milhões de quilómetros de testes percorridos na Europa com o FSD Supervised ativo.

A RDW deixou, além disso, várias notas relevantes. Reforçou que este sistema não corresponde a condução autónoma, que o condutor continua responsável e que deve manter sempre o controlo, pronto a assumir a condução. Sublinhou também que não se limitou aos dados fornecidos pela Tesla e que passou a acompanhar o sistema mensalmente.

Mesmo com esta aprovação, a resistência é maior noutros países europeus. A Suécia enviou, no final de abril, uma carta ao Comité Técnico de Veículos a Motor da União Europeia (TCMV), recomendando que o sistema não seja aprovado para circular em solo europeu, a menos que a Tesla desative uma funcionalidade concreta: a possibilidade de o veículo circular acima dos limites de velocidade legais.

Outros países nórdicos, como a Finlândia e a Noruega, também manifestaram reservas parecidas, embora sem uma posição tão definitiva.

Primeiro passo: aprender as regras

Antes de o sistema poder ser ativado pela primeira vez, o condutor é obrigado a completar um tutorial.

No nosso caso, a Tesla criou um perfil da Razão Automóvel e foi necessário ver um vídeo com cerca de sete minutos. No final, surgiram duas perguntas simples para confirmar que tínhamos compreendido as limitações do sistema. Se a resposta estiver errada, é preciso repetir - e surgem outras perguntas finais.

O objetivo é inequívoco: o FSD Supervised não é um passe livre para deixar de conduzir; é, acima de tudo, um apoio ao condutor.

Uma experiência livre

O nosso teste não aconteceu numa rota fechada, ensaiada ou previamente definida pela Tesla.

Escolhemos os destinos, inserimos os pontos na navegação e seguimos para onde quisemos. O carro não estava programado para repetir um percurso específico, nem a experiência foi preparada para mostrar apenas os contextos mais favoráveis.

Ao longo de cerca de 100 km, atravessámos cidade, áreas suburbanas, vias mais rápidas e estradas com diferentes graus de complexidade. E o resultado acabou por ser mais surpreendente do que antecipávamos.

Fácil de utilizar

Ligar o sistema é extremamente simples. Depois de definir o destino na navegação, ativa-se o sistema no ecrã de infoentretenimento ou através de um botão no volante, e o carro começa a conduzir (se não for definido um destino, o veículo segue a estrada sem objetivo definido).

A partir daí, o automóvel assume direção, aceleração e travagem, interpreta o que o rodeia e tenta cumprir o trajeto até ao destino. No ecrã central, vemos a forma como o carro está a representar o mundo: faixas, veículos, peões, ciclistas, semáforos e obstáculos, com o percurso marcado a azul.

Desligar também não tem complicação. Basta mexer no volante ou atuar nos pedais para recuperar o controlo. E, depois de uma intervenção, voltar a ativar o sistema continua a ser imediato.

Esta passagem fluida entre humano e máquina é, para mim, um dos pontos mais fortes do FSD Supervised: o condutor assume, corrige o que for necessário e devolve a condução ao sistema quase sem fricção.

Duas intervenções em cerca de 100 km

Durante aproximadamente 100 km, tivemos de intervir duas vezes. A primeira foi num estacionamento muito apertado. Queríamos imobilizar o carro num local concreto, com pouco espaço, e o sistema não conseguiu terminar a manobra. Assumimos o controlo para estacionar e, mais tarde, também tivemos de sair manualmente desse mesmo lugar.

A segunda intervenção aconteceu no centro de Amesterdão, num entroncamento sem semáforos, com peões, trânsito nos dois sentidos e muitos estímulos a ocorrer em simultâneo. O carro estava a demorar a decidir quando avançar e virar à esquerda. Não tomou nenhuma ação perigosa, mas hesitou tempo demais. Pegámos no controlo, fizemos a manobra e reativámos o sistema logo de seguida.

A Tesla diz que o sistema será atualizado com frequência, com base em dados da utilização do próprio FSD Supervised, combinados com dados recolhidos de modelos conduzidos por humanos. Por isso, se eu regressar a Amesterdão daqui a um mês, irei, segundo a Tesla, encontrar um sistema que já não será exatamente o mesmo.

Segundo a Tesla, com base nos dados da sua frota, a utilização do FSD Supervised está associada a sete vezes menos colisões graves e ligeiras e a cinco vezes menos colisões fora de autoestrada.

A marca estima ainda que, se esta tecnologia fosse aplicada em escala, poderia melhorar a segurança rodoviária nos EUA em mais de 80%, evitando potencialmente mais de 32 000 mortes e mais de 1,9 milhões de feridos todos os anos.

Forte adesão

A reação dos clientes neerlandeses foi muito expressiva. Em menos de um mês, os Tesla nos Países Baixos somaram mais de 10 milhões de quilómetros com o FSD Supervised ligado. Pouco depois, as autoridades neerlandesas apontavam para cerca de 40 000 Tesla a utilizar o sistema e aproximadamente 24 milhões de quilómetros acumulados desde a aprovação.

Isto sugere que a funcionalidade foi bem recebida e, mais importante, está mesmo a ser utilizada.

Está pronto para Portugal?

Do ponto de vista técnico, o sistema já ultrapassa (e muito) aquilo que esperávamos. Conduz com naturalidade, decifra cenários urbanos difíceis, resolve situações complexas e permite fazer distâncias longas com poucas ou nenhumas intervenções.

A entrada em Portugal, no entanto, depende de aprovação legal. O facto de já estar ativo em cinco países europeus prova que o processo está em andamento, mas não significa, por si só, que venha a existir uma disponibilização generalizada em toda a União Europeia.

Fica ainda a questão mais delicada: estarão os condutores preparados para usar corretamente uma ferramenta destas?

O FSD Supervised obriga a uma postura diferente. Não é condução manual. Também não é autonomia total. É um território intermédio, em que o automóvel faz muito, mas o ser humano continua no centro da responsabilidade.

O nosso veredito

Para mim, experimentar o Tesla FSD Supervised foi uma das vivências mais marcantes deste ano. Já o tinha referido na Razão Automóvel, e quem me conhece sabe o quanto aprecio conduzir, mas é difícil ficar indiferente ao que está aqui a acontecer.

O sistema não é infalível. Precisa de supervisão por motivos legais, mas também por razões práticas: há situações em que se percebe que um ser humano pode ser chamado a resolver. E isso é aceitável, até porque em nenhum momento é sugerido ao condutor que ele deixa de ser necessário.

À velocidade a que este tipo de tecnologia - e outras semelhantes - está a evoluir, parece não faltar muito para que deixe de ser indispensável ter um condutor ao volante dentro de centros urbanos. Mesmo que seja para enfrentar uma cidade onde é preciso ter cuidado quando se pede um bolo.


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