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Incêndio de Vouzela passou durante a noite para Águeda e varreu dezenas de localidades

Dois bombeiros em equipamento completo observam e planeiam combate a incêndio florestal junto a aldeia de Massadas.

O incêndio que teve origem em Vouzela cruzou durante a noite para Águeda e passou por dezenas de localidades, mantendo a população em permanente sobressalto.

Vigilância apertada em Massadas (Águeda)

Com os olhos irritados e avermelhados, exausta após uma noite em claro e com o fumo cerrado no ar, Amélia Almeida, 77 anos, não desviava o olhar do horizonte. Era ainda meio da tarde e continuava à porta de casa, onde estava desde a noite anterior, em Massadas, na freguesia de Castanheira do Vouga, no concelho de Águeda, acompanhada pela cunhada. Nenhuma delas saiu do lugar. O fogo, que tinha começado em Vouzela na véspera, alastrara durante a madrugada ao território aguedense, avançando depressa. A dada altura, já rondava as imediações e o receio era que, a qualquer instante, uma projeção atingisse as casas. Para esse cenário, já tinham baldes com água preparados.

"Não me deitei. Estive aqui sempre. De noite, o lume tinha uma frente louca, que se via daqui. Infelizmente já estamos habituados a esta desgraça", desabafava Amélia, sem largar de vista as colunas de fumo que se erguiam ao longe. Naquele momento, havia chamas à entrada da povoação. Familiares, ali perto, concentravam-se em proteger outra habitação. Amélia e a cunhada, Maria Isabel, de 67 anos, aguardavam sentadas no alpendre, ao lado de um grande balde de água. "Temos os pastos com os palheiros, aqui ao pé de casa, e temos de ter cuidado caso caia alguma "fragola" [faúlha]", explicaram.

O incêndio de 1986, ocorrido ali perto, continua presente na memória de ambas: morreram 13 bombeiros e três civis. E, sempre que há fogo, o medo volta. "Está tudo guardado aqui dentro na cabeça. Claro que há medo. Ele anda a arder perto e estamos sempre atentas, para ver quando há uma aflição ou um grito. Vamos logo a correr", dizia Amélia, soltando um suspiro.

"Noite de sobressalto"

Num concelho repetidamente castigado pelas chamas ao longo dos anos, as marcas do que já aconteceu continuam bem vivas em cada habitante. Leonardo Fernandes, 24 anos, não quer que se repita o que a sua localidade sofreu há dez anos. Por isso, ontem decidiu não ir trabalhar, ficou por casa e dedicou parte do dia a regar o exterior da habitação onde vive, no Vale da Galega. Ainda trazia vestida a camisola da seleção portuguesa, porque nem sequer conseguiu ir a casa. "Foi uma noite de sobressalto. Metade a ver o jogo, metade atentos ao fogo, que andou longe, mas dava para ver o clarão. A única coisa que podemos fazer é tentar molhar as coisas e rezar", sublinhou.

Propagação desde Tourelhe: 40 quilómetros em seis horas

O incêndio teve início às 03.04 horas de anteontem, em Tourelhe, na freguesia de Cambra, em Vouzela, e estendeu-se aos concelhos de Oliveira de Frades e Tondela. Mais tarde, acabou por chegar a Águeda. Ao JN, o presidente da Câmara de Águeda, Jorge Almeida, referiu que, durante a noite, as chamas percorreram "40 quilómetros em seis horas". Por volta das 4 horas de anteontem, já se registavam projeções a atingir manchas de vegetação no centro da cidade.

No percurso, o incêndio gerou pânico em dezenas de lugares, que se mantinham em alerta ao longo do dia - e que temiam enfrentar mais uma noite difícil. "O comportamento deste incêndio foi verdadeiramente invulgar", assegurou o autarca, descrevendo-o como "atípico" e "excecional".

Combate no terreno e fumo como obstáculo

Mais de mil operacionais estiveram no combate às chamas, com o apoio de centenas de veículos e de oito meios aéreos. O fumo revelou-se um adversário particularmente duro. "Durante o dia de hoje [ontem] praticamente tivemos noite, porque não conseguimos vislumbrar o sol com este teto de fumo", declarou o presidente da Câmara.

"Se não fosse a Associação Humanitária Castanhense, a quem agradeço muito, não sei o que seria. A noite foi de muita agitação, espera-se sempre o pior. Felizmente, só chegou perto da nossa casa de dia e, em pouco tempo, os meios chegaram cá", contava Carina Pereira, 22 anos, enquanto as chamas consumiam o terreno ao lado da sua casa. A apreensão estava longe de terminar: até ao fecho desta edição, o fogo continuava a lavrar.

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