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Melodia Social leva musicoterapia a 120 alunos em Arouca

Professora a tocar guitarra com crianças sentadas em círculo a tocar tambores e maracas numa sala iluminada.

Em Arouca, um projeto está a envolver 120 alunos com necessidades específicas - muitos provenientes de outros concelhos - e famílias e professores apontam efeitos claramente positivos.

A ideia de que "A música é poderosa. Quando as pessoas a ouvem, podem ser afetadas" é atribuída a Ray Charles, pianista e cantor norte-americano que morreu em 2004. Em Arouca, essa visão ganha expressão prática: crianças e jovens com necessidades específicas recorrem à musicoterapia para reforçarem a regulação emocional.

A iniciativa chama-se Melodia Social, arrancou em fevereiro e tem a primeira fase com término previsto para maio de 2027. No total, estão programadas 47 sessões para 120 alunos do Agrupamento de Escolas de Arouca, incluindo vários utentes oriundos de outros concelhos.

A musicoterapeuta Sérgia França trabalha com "som, silêncio, ritmo e harmonia" para apoiar a atenção e facilitar a expressão. Como sublinha, "Não quero que eles sejam músicos. Quero que saiam melhor do que entraram e a música é um meio para isso".

Numa sessão acompanhada pelo JN, os jovens colocaram-se em fila sobre um colchão e, orientados pelo som de uma pequena guitarra, apresentaram um curto concerto. Se, no começo, a vergonha se fazia notar, com o avançar do tempo os sorrisos acabaram por tomar conta do “palco”.

A terapeuta explica que "Muitos deles não verbalizam, mas conseguem comunicar através da música. Quando sinto que eles estão a acompanhar as minhas mudanças de ritmo e a focar-se no que estamos a fazer, fico muito contente. No geral, fico feliz por poder ajudá-los, nem que seja um bocadinho". E acrescenta que, em alguns casos, um simples "olá" já é entendido como um passo em frente e um indício encorajador de evolução na comunicação para quem sente dificuldades em expressar-se.

Entre os participantes está Daniel, 15 anos, que, segundo a mãe, Georgina Ferreira, tem síndrome de hemiplegia, uma condição neurológica que provoca episódios em que um dos lados do corpo fica paralisado. Ao saber que o projeto Melodia Social iria avançar, a mãe mostrou-se satisfeita, sobretudo por o filho gostar de música. "Tem um efeito muito calmante nele e acredito que o ajuda. O Daniel não liga muito à escola, mas interessa-se pela música e acho que esta é a terapia que lhe está a fazer melhor", contou. Em casa, a lista de reprodução é dominada por música portuguesa, com temas de Fernando Daniel entre as escolhas.

Também João Diniz integra as sessões; tem autismo entre os graus 1 e 2. A mãe, Carla Sousa, destaca que, além de acalmar e ajudar no foco, a música traz outras vantagens: "Quando chega a casa põe sempre música e acredito que isso o incentiva a falar. Outro dos benefícios é que consegue até aprender outras línguas porque ouve todo o tipo de artistas", explica.

Embora Daniel e João tenham necessidades distintas, as famílias partilham uma preocupação: a falta de apoios. Essa realidade condiciona a vida profissional dos pais, que muitas vezes precisam de abdicar do trabalho para conseguirem acompanhar os filhos.

Mais tranquilos

O impacto da musicoterapia é igualmente observado pelos docentes que acompanham estas crianças e jovens no dia a dia. Sara Fiães, professora de Educação Especial na escola de Escariz, considera que as sessões têm um efeito positivo na "capacidade de interação e autorregulação dos alunos". "Quando saem das sessões voltam mais relaxados e tranquilos. A música, de alguma forma, ajuda-os a concentrarem-se durante mais tempo. A musicoterapia é um complemento fundamental para o desenvolvimento de competências destes alunos", defende.

De acordo com a docente, estes alunos "beneficiam muito da estruturação do ambiente e das rotinas, que são de extrema importância, contribuindo para a previsibilidade do dia escolar, para o desenvolvimento da sua autonomia e para a sua autorregulação emocional". Nesse sentido, as sessões acabam por introduzir mais serenidade no quotidiano, algo que depois se revela determinante para uma aprendizagem mais eficaz e para uma melhor interação com colegas e professores.

Autarquias têm de dividir responsabilidades

O Melodia Social surgiu depois de a Câmara de Arouca ter sinalizado a necessidade de acompanhamento para crianças com deficiência. A vereadora da Educação, Cláudia Oliveira, esclarece que a meta central é "atenuar as dificuldades sentidas pelas famílias". "Durante o dia e as rotinas habituais, as pessoas portadoras de deficiência vão se sujeitando um bocadinho àquilo que os seus cuidadores podem fazer. Durante este momento da Melodia Social, elas têm poder. Está ali uma pessoa que lhes confere poder e as deixa escolher o que querem fazer", afirma.

A autarca refere que chegam muitos pedidos de apoio vindos de famílias de outros concelhos, o que pressiona a capacidade de resposta existente. Sublinhando que "não defende fronteiras" nestes casos, chama a atenção para a importância de garantir as melhores condições aos utentes. "É muito mais benéfico que tenham uma resposta de proximidade, o mais perto possível da residência. Temos de ser solidários nestas situações, mas dos 35 casos identificados só dois é que são de Arouca e as autarquias têm de dividir estas responsabilidades e oferecer respostas", frisou.

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Inscrições
Para integrar o projeto, os interessados podem inscrever-se por telefone (256 940 252) ou email ([email protected]), nos serviços da Via Verde Social da Câmara de Arouca. O investimento do município no projeto é de 12 500 euros.

Pelas freguesias
Está prevista uma segunda componente do projeto, com arranque "para breve", intitulada "Atendimentos Inclusivos Descentralizados", desenvolvida em colaboração com a Associação Salvador, que prevê a realização de atendimentos descentralizados em diversas freguesias do concelho.

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