As cidades frias raramente entram na lista de preocupações quando a exposição ao calor urbano passa a ser uma emergência. A ideia está enraizada: o calor extremo é coisa de Phoenix, do Cairo, de locais que já convivem com verões implacáveis.
À primeira vista, as cidades mais frias parecem ter outros desafios. Porém, uma análise global de 1.400 cidades veio inverter essa lógica.
Nos últimos 20 anos, as zonas que aqueceram mais depressa não foram as tradicionalmente tórridas. E a exposição ao calor urbano cresceu a um ritmo muito superior ao que o aumento da população, por si só, conseguiria justificar.
Acompanhamento de 1.400 cidades
Há anos que os cientistas monitorizam a subida das temperaturas, mas grande parte desses registos depende de estações meteorológicas dispersas, que deixam por medir extensas áreas dentro de cada cidade. Para obter uma visão mais completa, uma equipa recorreu a satélites.
O trabalho foi liderado por Marzie Naserikia, investigadora do clima na Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW), em Sydney, Austrália. O grupo reuniu leituras de satélite relativas a 1.400 cidades, cobrindo cerca de duas décadas.
O que os satélites medem é a temperatura da superfície terrestre - o calor que irradia do asfalto, dos telhados e do solo exposto, e não a temperatura do ar que um termómetro regista. Estes dois valores podem divergir bastante, mas as medições de superfície têm a vantagem de abranger toda a cidade de forma uniforme.
Onde o calor sobe mais depressa
A expectativa parecia óbvia: as cidades que já eram quentes seriam as que mais aqueceriam. Os dados indicaram o contrário.
Os aumentos mais acentuados surgiram em cidades de clima frio e durante o inverno, e não sob o sol intenso do verão. Ao longo de duas décadas, nas cidades que aqueceram mais, as temperaturas diurnas da superfície subiram até 7 °F (4 °C).
Nas cidades com aquecimento mais lento, a subida ficou mais próxima de 1 °F (0.6 °C). Os maiores saltos concentraram-se na Europa de Leste e na Ásia Ocidental.
Ainda não existe consenso total sobre o motivo pelo qual as cidades frias lideram. A redução da neve no inverno - que antes refletia a luz solar - provavelmente contribui, a par de um ritmo acelerado de construção. Um estudo separado concluiu que o desenho urbano e a zona climática, em conjunto, determinam quão quentes podem tornar-se as superfícies de uma cidade.
Danos silenciosos durante a noite
Os picos diurnos chamam mais atenção, mas é depois de escurecer que o calor provoca alguns dos efeitos mais discretos. Em cidades áridas, as noites quentes ocorrem agora cerca de 47% mais vezes do que no início do período analisado.
Uma noite fresca permite ao corpo recuperar de um dia abrasador. Quando esse alívio desaparece, a pressão acumula-se - aumentando o risco de sono de má qualidade, exaustão pelo calor e uma maior sobrecarga do coração.
O impacto recai de forma mais pesada sobre os idosos. Por isso, o aumento do calor noturno em regiões já secas é particularmente preocupante.
Nestes locais, muitas casas podem não ter sistemas de arrefecimento e os dias já eram severos. Antes, as noites funcionavam como pausa - e, cada vez mais, deixam de o ser.
Exposição ao calor urbano em alta
A subida da temperatura é apenas metade da história. A outra metade é quantas pessoas ficam expostas a esse calor.
À medida que as cidades crescem, aumenta o número de residentes a viver nas zonas onde o calor é mais extremo. Somando estas duas tendências, a exposição ao calor urbano durante dias extremos aumentou cerca de 51% a nível mundial.
Outros trabalhos apontam para novas subidas das temperaturas de superfície locais à medida que a expansão urbana continua. Este estudo dá especial peso a esse valor combinado.
As cidades não estão apenas a aquecer - as populações dentro delas, expostas aos piores dias, também estão a crescer em paralelo com o aquecimento.
Separar as causas
Aqui, o estudo acrescenta algo diferente. O aumento da exposição pode resultar de um clima mais quente, de mais pessoas, ou de ambos em simultâneo. A equipa separou estas influências, cidade a cidade, para perceber qual delas pesava mais.
O aquecimento do clima fez a exposição aumentar mais de 80% acima do que teria acontecido apenas com o crescimento populacional. Foi a força mais determinante por trás da subida.
A proporção muda conforme o local. Em regiões continentais com invernos frios, o aquecimento do clima explicou a maior parte do aumento diurno - cerca de 71 percent.
Nas cidades áridas verificou-se o inverso. Aí, a expansão da população teve maior influência, contribuindo com perto de 69 percent.
Soluções ajustadas a cada cidade
Padrões como estes mostram aos planeadores onde concentrar esforços. Uma cidade de clima frio que aquece rapidamente no inverno enfrenta desafios diferentes dos de uma cidade desértica a receber novos residentes.
Para a cidade fria, a prioridade poderá passar por edifícios mais frescos e coberturas que retenham menos calor. Já a cidade mais seca e em rápido crescimento precisa de sombra, água e alertas que cheguem aos recém-chegados antes de uma onda de calor.
O risco para a saúde depende de acertar nestas medidas. Outro estudo, ao seguir cidades sob um aquecimento constante, concluiu que a capacidade de lidar com o calor já está a deteriorar-se em algumas das regiões de crescimento mais acelerado.
Para lá do número que faz manchetes
A novidade não é a constatação de que as cidades estão a aquecer. O que muda é o mapa de onde o calor aumenta mais depressa, quantas pessoas ficam apanhadas nesse aumento e a clareza com que se distingue o efeito do aquecimento climático do efeito do crescimento populacional.
Essa separação dá às cidades uma ferramenta mais precisa. Quando um município sabe se o risco está a crescer sobretudo por causa do clima ou sobretudo por causa da sua própria expansão, consegue direcionar recursos limitados para as medidas com maior impacto.
Hoje, tanto as cidades frias como as cidades secas têm razões para agir antes que os seus verões - e as suas noites - se tornem uma ameaça do tipo que os lugares mais quentes já conhecem.
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