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Semaglutida (Ozempic e Wegovy) e VIH: estudo sugere impacto no envelhecimento biológico

Pessoa a olhar para tablet com imagem digital de dupla hélice de ADN e relógio, numa secretária com óculos e fita vermelha.

A maioria das pessoas conhece a semaglutida como o medicamento por detrás do Ozempic e do Wegovy. É usada para ajudar pessoas com diabetes tipo 2 a controlar a glicemia e também pode apoiar a perda de peso.

Agora, porém, os cientistas estão a colocar uma questão bem mais ambiciosa: será que este mesmo fármaco consegue influenciar a forma como o corpo envelhece?

Um novo estudo dá um sinal precoce de que isso pode acontecer. Ainda assim, o trabalho não demonstra que a semaglutida faça alguém viver mais tempo, nem prova que torne as pessoas mais jovens.

O que os dados sugerem é algo mais específico: o medicamento pode abrandar alguns indicadores de envelhecimento no interior do organismo.

O que o envelhecimento realmente significa

Habitualmente, pensamos na idade como um número. Alguém tem 40, 50 ou 70 anos porque viveu esse número de anos. No entanto, o corpo é mais complexo.

Duas pessoas podem ter exatamente a mesma idade cronológica e, ainda assim, mostrar realidades muito diferentes ao nível celular.

Uma pode apresentar mais inflamação, mais gordura à volta dos órgãos e um risco de doença mais elevado. A outra pode ter vasos sanguíneos mais saudáveis, melhor metabolismo e níveis de inflamação mais baixos.

A esse desfasamento dá-se o nome de idade biológica: uma forma de colocar uma pergunta simples - quão “velho” parece o corpo por dentro?

Os investigadores conseguem estimar essa idade observando pequenas marcas químicas no ADN. Essas marcas alteram-se com o passar do tempo, e os cientistas usam essas mudanças para construir ferramentas conhecidas como relógios epigenéticos.

Estes relógios fornecem pistas sobre a velocidade a que o organismo está a envelhecer.

O VIH pode acelerar o envelhecimento

O estudo avaliou adultos a viver com VIH que também apresentavam excesso de gordura profunda na zona abdominal.

Este tipo de gordura, chamado gordura visceral, acumula-se em torno dos órgãos. É considerada mais nociva do que a gordura subcutânea (debaixo da pele), porque está associada a inflamação, doença cardíaca, diabetes e envelhecimento mais rápido.

Mesmo quando a terapêutica funciona bem e o vírus está controlado, pessoas a viver com VIH podem mostrar sinais de envelhecimento biológico acelerado. O organismo pode continuar sujeito a inflamação prolongada e a stress metabólico.

“People with HIV often experience accelerated aging, even if it is well-controlled with antiretroviral therapy,” disse o Dr. Michael Corley, professor associado na Faculdade de Medicina da UC San Diego e primeiro autor do estudo.

Isto tornou este grupo especialmente relevante para a investigação. Se o corpo já apresenta sinais de envelhecimento mais intensos, torna-se mais fácil detetar se uma intervenção altera esses sinais.

A testar os efeitos da semaglutida

O ensaio teve a duração de 32 semanas. Uma parte dos participantes recebeu semaglutida uma vez por semana. Os restantes receberam placebo, com aspeto semelhante ao tratamento, mas sem o fármaco.

O objetivo inicial do ensaio era estudar a gordura corporal. Os investigadores queriam perceber de que forma a semaglutida alterava a gordura à volta dos órgãos e noutras regiões do corpo.

Mais tarde, a equipa recorreu a amostras de sangue recolhidas durante o ensaio para analisar marcadores de envelhecimento. Avaliaram padrões no ADN e aplicaram 17 relógios epigenéticos para estimar o envelhecimento biológico.

Desta forma, obtiveram uma perspetiva mais ampla: em vez de dependerem de um único teste, observaram várias vias pelas quais o organismo pode refletir sinais de envelhecimento.

Sinais de envelhecimento mais lento

Vários destes relógios indicaram que as pessoas que tomaram semaglutida apresentaram um envelhecimento biológico mais lento do que aquelas que receberam placebo.

Um dos relógios, denominado DunedinPACE, sugeriu que o grupo da semaglutida envelheceu cerca de 9 por cento mais devagar durante o período do estudo.

Outros relógios também apontaram melhorias, sobretudo os mais ligados à inflamação, ao metabolismo e à saúde cardiovascular.

Isto não significa que o medicamento tenha “recuado no tempo”. Significa, sim, que o sangue mostrou alterações que os cientistas associam a um envelhecimento mais lento.

Os investigadores verificaram ainda se o resultado poderia ser explicado apenas por mudanças nos tipos de células sanguíneas. Não encontraram essa explicação, o que torna os dados mais interessantes.

A gordura pode ser a peça-chave

Uma hipótese para a semaglutida influenciar o envelhecimento é a sua capacidade de reduzir a gordura visceral.

A gordura visceral não é apenas “peso a mais”. Pode emitir sinais que aumentam a inflamação em todo o corpo. Com o tempo, isso acrescenta carga aos órgãos e acelera danos relacionados com a idade.

Ao diminuir esta gordura mais prejudicial, a semaglutida poderá também reduzir parte da inflamação associada a envelhecimento acelerado.

“Emerging data also suggest that GLP-1 drugs may reprogram certain cells in different organs, which could help explain why we see effects across multiple aging clocks,” afirmou Corley.

O estudo observou igualmente melhores sinais de envelhecimento associados a vários sistemas do corpo, incluindo cérebro, coração, fígado, rins, sangue, metabolismo e inflamação.

Ainda assim, estas conclusões baseiam-se em marcadores no sangue, e não em medições diretas do envelhecimento dos órgãos.

Importância da investigação

O envelhecimento é o maior fator de risco para muitas doenças, entre as quais doença cardíaca, demência, diabetes e doença renal.

Por isso, cada vez mais cientistas procuram saber se é possível abrandar os processos do organismo que tornam estas doenças mais prováveis.

A semaglutida desperta interesse porque já interfere com vários desses processos: influencia o peso, a glicemia, a inflamação e o metabolismo.

Este estudo acrescenta a possibilidade de também afetar alguns sinais moleculares associados ao envelhecimento.

“Many of the biological processes we study in HIV are also central to aging in the general population,” disse Corley.

“Because these processes can emerge earlier or be more pronounced in people with HIV, this community can help us identify interventions that may improve healthspan more broadly.”

Aqui, healthspan refere-se ao número de anos vividos com boa saúde. Não se trata apenas de viver mais; trata-se de permanecer saudável durante mais tempo.

Persistem questões importantes

O estudo foi pequeno. Apenas 84 pessoas entraram na análise final dos marcadores de envelhecimento. Além disso, durou menos de um ano, pelo que não se sabe se estes efeitos se manteriam ao longo do tempo.

O foco esteve em pessoas a viver com VIH e com excesso de gordura visceral, o que significa que os resultados podem não ser generalizáveis a toda a população.

Importa também notar que nem todos os relógios de envelhecimento mudaram. Alguns mostraram pouco ou nenhum efeito.

Isto sugere que a semaglutida pode atuar sobre certas dimensões do envelhecimento - sobretudo as ligadas a gordura, inflamação e metabolismo - mas não sobre todos os processos de envelhecimento.

Direções para investigação futura

Com base neste estudo, a semaglutida não deve ser descrita como um medicamento “anti-envelhecimento”. Continua a ser utilizada para indicações médicas aprovadas, como diabetes e controlo de peso.

“We are not saying that semaglutide reverses aging or makes people younger,” disse Corley.

“What we are seeing is a signal that it may slow some of the biological processes associated with aging.”

“With newer GLP-1-based therapies now emerging, the field has an opportunity to test whether different drugs in this class have distinct effects on aging biology and to identify which patients may benefit most.”

Por agora, o estudo oferece uma pista promissora: um fármaco conhecido pela perda de peso pode também influenciar alguns sistemas do corpo relacionados com o envelhecimento.

O passo seguinte será testar esta hipótese em estudos maiores, com maior duração e em grupos mais diversos de pessoas.

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