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Cabo Verde na Praça do Pelourinho: noite inesquecível frente à Argentina de Messi

Pessoas a assistir a um jogo de futebol ao ar livre, algumas com bandeiras de Cabo Verde, e imagem de Messi no ecrã gigante.

Do apuramento histórico ao duelo com a Argentina de Messi

Na Cidade Velha de Santiago, a Praça do Pelourinho transformou-se num estádio ao ar livre: a esperança vestiu azul escuro e chamou centenas de adeptos cabo-verdianos para um frente a frente inesquecível com a Argentina de Messi. A ambição de surpreender (ainda mais) o Mundo acabou por morrer ali. Mas "no stress": ele escutou bem a voz crioula de Cabo Verde.

Ao longo do dia, não se falou de outra coisa. Com Vozinha a segurar a equipa lá atrás, Cabo Verde deu que falar em todo o planeta. Não facilitou diante de Espanha e, com três empates, fechou a fase de grupos em 2.º lugar do Grupo H, garantindo presença nos 16 avos de final (foi a primeira seleção estreante desde a Eslováquia, em 2010, a passar a fase de grupos). A questão, à hora do jogo, era simples: a onda de sucesso ficava por ali ou ainda haveria espaço para a proeza de chegar aos oitavos, deixando a Argentina pelo caminho?

Antes mesmo do pontapé de saída, os jogadores parecem responder. No ecrã gigante, montado à pressa no Pelourinho pouco antes da hora marcada, ouve-se: "A esperança é do tamanho do mar que nos abraça" - e, em campo, cumprem esses versos com rigor. O hino cabo-verdiano, mais lírico do que guerreiro, fala de liberdade e preserverança: não convoca armas nem feitos heroicos, não recorre a sangue ou lágrimas. Mas houve suor. Muito. Até ao último segundo.

A Cidade Velha de Santiago em noite de jogo no Pelourinho

O coração da Cidade Velha, na ilha de Santiago, encheu-se de gente confiante para ver os estreantes tubarões azuis medirem forças, olhos nos olhos, com a campeã do Mundo em título. É noite de jogo no Pelourinho. A pele ainda guarda o calor do sol que se pôs e ficou suspenso no ar. E os peitos fervilham com a ideia de o dia seguinte nascer como feriado nacional.

A praça, de calçada irregular e marcada pelo tempo que a fixou como História colonial, recebe uma multidão de homens, mulheres e crianças vestidas de azul marinho, à espera de fazer História também. Cabo Verde, recém-chegado ao Campeonato do Mundo de futebol e já provado sem medo dos colossos, encara a Argentina de Messi com uma fé optimista de a derrubar.

Pouco antes das nove da noite, o Pelourinho ainda parecia desalinhado, mas o apito inicial trouxe a vaga que acompanha os tubarões - e que sofreu e celebrou com eles até ao fim. Um homem e uma mulher aparecem com cadeiras trazidas de casa às costas e instalam-se junto da primeira fila, já tomada pela criançada. Um rapaz surge a arrastar sozinho um banco comprido. Num instante, há gente por todo o lado: sentada e de pé, à frente, ao centro e atrás, ao colo uns dos outros e até em cima do monumento ao fundo.

Na hora do hino, a mão ao peito repetiu-se; tantas vezes, porém, subiu ao ar numa euforia musculada e voltou à cabeça em aflição e sobressalto.

Os 120 minutos que prenderam a Praça do Pelourinho

A Argentina adianta-se aos 29 minutos, com Lionel Messi a marcar o primeiro golo, e o intervalo chega com vantagem para os sul-americanos. Ainda assim, o adversário não quebra. Aos 59, Deroy Duarte faz o empate e enlouquece a pequena multidão da Cidade Velha (a vila tem pouco mais de 1200 habitantes): há gritos, saltos, corridas, abraços, clamores efusivos - tudo aquilo que um golo que devolve ânimo costuma permitir.

O tempo regulamentar fecha com 1-1, mas o prolongamento começa com um golpe: aos 92 minutos, Lisandro Martínez volta a colocar a Argentina na frente. No Pelourinho, instala-se um silêncio pesado - por mais brilhantes que tenham sido as defesas da nova estrela do Mundial, talvez não bastassem para manter vivo o sonho dos tubarões azuis, e o mar de esperança convocado pelo hino fica subitamente mais baço.

E, quando já havia olhares descrentes e a surpresa parecia preparar-se para o pior, a praça volta a abrir-se em alegria: Sidny Lopes Cabral marca um golaço aos 103. Dizer que sorriem é pouco; não sorriem, gargalham. A apoteose regressa sem pedir licença. "Isto é uma emoção!", desabafa uma adepta cabo-verdiana, sem saber se há-de rir, chorar, ficar ou ir embora. O homem mesmo à sua frente não hesita: gesticula com força e berra para Miami desde o primeiro minuto, ralhando com Messi em crioulo sempre que o astro aparece na televisão.

Entre golos e defesas, entre acertos e passes falhados, o centro da Cidade Velha repetiu "É Cabo Verde! É Cabo Verde" do princípio ao fim, já com o jogo perto de fechar. Minuto 111: um autogolo de Diney Borges, na sequência de um cabeceamento de Cristian Romero, faz o 3-2 para a Argentina. Um resultado que, apesar de desfavorável, Cabo Verde tentou virar até ao último segundo - insistindo uma e outra vez, empurrando a Argentina para o limite e obrigando-a a 120 minutos penosos, perante uma seleção sólida que já venceu três Mundiais e continua a surgir como uma das favoritas ao título deste ano.

Depois do apito final: "O futebol é assim" e o orgulho cabo-verdiano

O jogo termina e, com ele, acaba o sonho. Ainda assim, a tristeza na praça tem prazo. "O futebol é assim", encolhe os ombros Kennedy, taxista, que trabalhou antes e vai voltar ao trabalho a seguir.

Depois do apito final, a vida não pára: a máquina das pipocas continua a deitar, as espetadas de frango e pimento mantêm-se na grelha, e o funaná segue a tocar nas colunas. "Nós vencemos! Muito orgulho! Nós somos Cabo Verde de corpo e alma!", afirma Firmina, "muito satisfeita" com o jogo que viu ao lado da amiga Tatina, duas entre as centenas que vieram assistir ao país - trazido na roupa e nos brincos - a jogar bola com os grandes.

E, já que se fala em grandes... e o Vozinha? "É uma estrela! Pôs Cabo Verde no Mundo!".

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