Seleção portuguesa em Toronto: receção calorosa fora do estádio
Toronto acolheu a seleção portuguesa de braços abertos, com uma energia que a equipa das quinas ainda não tinha sentido neste Campeonato do Mundo. Há imagens impressionantes da chegada e da saída do autocarro para o hotel, bem como de uma multidão na rua a aplaudir os jogadores depois do jogo frente à Croácia. Tudo isto faz lembrar o Euro 2004.
Ainda assim, esse entusiasmo ficou, em grande medida, à porta do estádio - e não por falta de esforço da comunidade emigrante, que fez o que estava ao seu alcance.
Nas bancadas: mais portugueses, mas menos voz
Dentro do recinto havia, de facto, mais portugueses nas bancadas, mas ouvia-se mais croata do que a língua de Camões. Falei com vários adeptos que estiveram lá e muitos descreveram o que se passava como "ambiente plástico", explicando que faltava um cântico entoado em uníssono.
A alteração constante do preço dos bilhetes mudou a mentalidade de quem vai às grandes competições. Este Mundial tornou-se, antes de mais, um mercado de revenda e só depois uma festa. Muita gente fica obcecada com o ingresso e não com o jogo.
O apoio extraordinário que vivi na Alemanha, no Euro 2024 e na Liga das Nações, está a anos-luz do que se sentiu aqui - e a Federação Portuguesa de Futebol deveria refletir sobre o tema. Do lado croata, aconteceu o oposto: pareciam menos, mas fizeram-se notar muito mais. Talvez porque estavam ali para apoiar e não para tentar lucrar.
Histórias em Toronto: bilhetes caros e desilusão
Cruzei-me com relatos muito concretos em Toronto: o João, da Póvoa de Varzim, desembolsou 800 euros pelo bilhete mais barato. O Sérgio, há 16 anos a viver em Toronto e a trabalhar num restaurante português, não teve capacidade financeira para garantir um lugar no estádio e ver a seleção ao vivo.
Já o Pedro, que segue Portugal pela América do Norte numa caravana, admite estar desiludido com a atmosfera e pede que os dirigentes intervenham.
Um estádio não se compõe apenas de pessoas - compõe-se de quem vai para cantar. Se o Mundial se tornou inacessível para o emigrante, então ficou mais rico em dinheiro e mais pobre em alma. E, no fim, aquilo que falta nas bancadas, a seleção sente no relvado.
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