Os choques alimentares globais já se acumulavam muito antes de a Rússia disparar um único tiro contra a Ucrânia. Há meses que os fertilizantes e o gasóleo vinham a encarecer. Quando, por fim, os navios ficaram impedidos de sair de Odesa, os preços dos alimentos já aceleravam.
Essa ordem dos acontecimentos acabou por ser determinante. Um novo estudo procurou perceber que tipo de crise provoca maiores danos no abastecimento de cereais. A conclusão é inesperada: o pico dos preços da energia causou mais estragos do que a própria guerra.
A lição mais importante, porém, está no calendário. Nenhum destes choques, isoladamente, tende a tornar-se catastrófico. O impacto realmente grave surge quando um deles coincide com um ano de más colheitas.
Um equilíbrio frágil
Cerca de um quinto das calorias consumidas no mundo atravessa pelo menos uma fronteira antes de chegar ao prato. O comércio de bens agrícolas mais do que duplicou nas últimas décadas.
Essa teia de ligações desloca alimentos de regiões com excedentes para locais onde a produção não chega, ajudando a compensar anos bons e maus. No entanto, as mesmas ligações que distribuem abundância também podem transmitir pressão.
Uma seca numa zona, uma proibição de exportação noutra, ou um aumento do custo de operar um tractor: cada choque se propaga pela rede. E, quando vários choques alimentares globais acontecem no mesmo ano, os efeitos acumulam-se.
Jasper Verschuur, investigador da University of Oxford e da Delft University of Technology, liderou uma equipa que criou um modelo para testar precisamente esse efeito de “empilhamento”. Os autores quiseram perceber quais os choques mais danosos e se o comércio internacional amortece o impacto - ou, pelo contrário, o amplifica.
Testar choques alimentares globais
A equipa reconstruiu, num computador, o comércio mundial de cereais. O modelo acompanha 177 países e quatro produtos básicos que alimentam grande parte do planeta: milho, trigo, arroz e soja.
Em cada país, o sistema permitia comprar, vender, recorrer a reservas ou estabelecer novos parceiros comerciais - tudo mediante um preço.
Sobre esse cenário de base, os investigadores aplicaram choques inspirados em acontecimentos recentes. Um deles reproduziu a perda das exportações ucranianas e a perturbação do transporte marítimo no Mar Negro. Outro aumentou os custos de fertilizantes, gasóleo e pesticidas, à semelhança do que ocorreu com a crise energética.
Um terceiro choque replicou as proibições reais de exportação de cereais impostas entre 2022 e 2023. Depois, veio a parte que muitos estudos anteriores praticamente não abordavam: os investigadores fizeram correr os três choques em simultâneo, confrontando-os com 54 anos de condições meteorológicas reais.
Esses anos incluíam desde colheitas excepcionais até falhas generalizadas de produção. Assim, a equipa conseguiu observar a forma como os choques interagem entre si, em vez de tratar cada um como um problema isolado.
Os preços dos combustíveis causaram o maior impacto
Para a maioria das pessoas, a guerra seria o maior risco para o abastecimento mundial de cereais. O modelo aponta noutra direcção. O aumento dos preços da energia foi o choque mais destrutivo e, no cenário combinado, dominou os resultados na maioria das regiões e culturas.
A explicação provável é a abrangência. Um bloqueio marítimo ou uma proibição de exportação atingem com força alguns pontos específicos e, muitas vezes, os países conseguem contornar a falha comprando noutros mercados.
Já o encarecimento do combustível e dos fertilizantes afecta quase todas as explorações agrícolas do mundo ao mesmo tempo, deixando pouca margem para “substituir” o fornecedor ou o local de compra.
Esse impacto generalizado está em linha com um estudo anterior que já tinha concluído que os custos de combustível e fertilizantes são mais prejudiciais do que a perda de exportações.
No choque combinado, os preços subiram cerca de um quarto no caso da soja e aproximadamente metade no caso do trigo. O bem-estar dos consumidores - o valor que os compradores obtêm para além do que pagam - caiu cerca de 16% para o trigo num ano típico.
Quando o tempo piora
O resultado mais marcante aparece quando uma colheita fraca coincide com choques causados por decisões humanas.
Num ano médio, o sistema mundial de cereais consegue absorver bastante pressão. O ajustamento do comércio reequilibra parte do dano e os preços oscilam, mas sem colapsar.
Porém, quando o clima empurra o ano para um cenário desfavorável, o suporte desaparece. A equipa verificou que a diferença entre o pior ano meteorológico e um ano normal, muitas vezes, excedia o efeito adicional somado de guerra, proibições e custos de combustível. A margem de segurança simplesmente esgotava-se.
Uma má colheita não se limita a acrescentar stress aos outros choques - ela remove a folga que permite ao comércio cumprir a sua função. Quando as crises chegam num ano de meteorologia desfavorável, a queda global no bem-estar dos consumidores pode ultrapassar $600 mil milhões num único ano.
Trata-se de uma perda sincronizada que atinge quase todos os países em simultâneo. Modelos anteriores, que avaliavam apenas um choque de cada vez, não tinham como captar este tipo de acumulação.
Que países sofrem mais
Nem todas as nações sentem estes abalos da mesma forma. A equipa testou cinco características que influenciam a capacidade de um país lidar com crises. Entre elas estavam a dependência de importações, o número de fornecedores e a dimensão das reservas de cereais.
Nenhuma característica, por si só, explicou a resiliência. No caso do trigo, reservas reduzidas deixaram países como a Zâmbia e a Mongólia perigosamente expostos. No arroz, a fragilidade esteve em depender de um conjunto estreito de fornecedores, o que penalizou nações como o Ruanda e o Burundi.
O padrão mais consistente foi o valor da diversidade. Países com muitos fornecedores conseguiram atravessar melhor os choques, sobretudo no caso do arroz. Quando várias disrupções comerciais acontecem ao mesmo tempo, os países de baixo rendimento são os que ficam mais estrangulados.
A resiliência não é uma característica fixa de cada país. Varia conforme a cultura agrícola em causa e a severidade do ano.
Reforçar a resiliência já
Antes deste trabalho, muitos modelos faziam passar a oferta de cereais por um único mercado global e desvalorizavam choques de curto prazo. E, quando seguiam rotas comerciais reais, normalmente só conseguiam lidar com uma perturbação de cada vez.
Este estudo reuniu fluxos comerciais, armazenamento e disrupções acumuladas no mesmo enquadramento - e mostrou que uma má colheita pode anular a almofada que o comércio costuma oferecer.
O resultado dá aos governos um alvo concreto para políticas públicas. O risco maior não é uma crise isolada, mas a coincidência infeliz de várias. O benefício surge quando a preparação acontece antes de chegar o ano mau.
Na prática, isso implica reforçar reservas, apoiar a oferta doméstica e alargar a lista de parceiros comerciais. Tentar reagir quando os preços já estão a subir é demasiado tarde.
A análise também contraria um reflexo comum. Se a atenção se concentrar apenas no conflito que domina as manchetes, fica por mexer o factor com maior alcance - o custo do combustível e dos fertilizantes em praticamente todas as explorações agrícolas.
O risco de falhas simultâneas nas principais regiões produtoras está a aumentar, o que reforça o argumento para agir agora, e não apenas quando as prateleiras começarem a ficar vazias.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário