Ao aproximarmo-nos do fim da via das boxes, Kimi Antonelli acciona o corta-corrente do AMG GT2. O V8, áspero e resmungão, cala-se de imediato e o carro desliza em silêncio até parar, interrompido apenas por um breve chiar dos travões. A porta abre-se. “Sim, tivemos alguma aquaplanagem”, diz o piloto, com aquilo que será a versão italiana da máxima despreocupação. Impassibile - é essa a palavra.
E posso confirmá-lo. Três minutos antes de entrarmos em pista, Silverstone fez o que faz como mais ninguém e trouxe uma chuvada torrencial de um céu que, nas duas horas anteriores, estivera praticamente azul e sem nuvens. Trocaram-se os pneus slick por pneus de chuva total, e a promessa de ataque máximo transformou-se numa aula prática de controlo de carro.
O que perdemos em velocidade de curva é largamente compensado pela capacidade do Kimi para “encontrar” aderência onde parece não existir. Visto de perto, é quase hipnótico - até porque Silverstone, na prática, virou um lago. É certo que o carro tem controlo de tracção multi-nível, mas ele tem-no tão reduzido que, no fundo, é o seu pé direito que manda.
Stowe, Vale e Club já são exigentes em piso seco; agora, roçam o absurdo. E a Wellington Straight não fica atrás - é precisamente ali que acontece o episódio de aquaplanagem… Será que, desta vez, vamos mesmo sair de pista?
Claro que não. Pilotos de F1 têm uma forma muito própria de eliminar o perigo nestes instantes. Tudo é feito com uma precisão quase cirúrgica. Além disso, o Kimi tem o GP do Mónaco à porta, por isso a análise risco/benefício está perfeitamente controlada. E, como sabemos, ele vai dominar a prova “joia da coroa” da F1 de um modo que até especialistas veteranos como Martin Brundle já comparam a Ayrton Senna. O miúdo transborda talento. E, ainda assim, mantém os pés bem assentes no chão.
Entretanto, Kimi também acaba de emprestar o seu nome a uma edição limitada do AMG GT2, baptizada W16, com função Push2Pass até 819bhp e DRS integrado. À semelhança de outros grandes nomes, a Mercedes-AMG percebeu que há um excelente negócio nos carros de competição para clientes - o exemplo mais falado é o GT3 Evo, alinhado pela Verstappen Racing e que, no mês passado, ficou muito perto da vitória nas 24 Horas de Nürburgring.
Só que o GT2 não é homologado, pelo que não fica preso a requisitos regulamentares. No W16, entram turbos novos e electrónica revista do motor, além desse “gadget” de boost, uma caixa de corridas sequencial de seis velocidades, amortecimento ajustável e estabilizadores de quatro níveis nos eixos dianteiro e traseiro. A assinatura do Kimi está estampada nas soleiras das portas. É um brinquedo de track day tremendamente apetecível - e pode ser seu por £706k. O próprio está aqui para entregar as chaves a uma garagem cheia de novos proprietários felizes.
“Conduzi-o em Monza, quando apresentámos o carro pela primeira vez, antes do Grande Prémio. É mesmo, mesmo porreiro”, diz. “Dei o meu feedback e eles fizeram alguns ajustes. Para ser honesto, desde as primeiras voltas sentiu-se óptimo - fácil de conduzir, o carro perfeito para te divertires em pista. É um carro rápido; com o push-to-pass fiz 310km/h na recta em Monza, isso é bastante veloz…”
Top Gear: Então são quatro vitórias em GP seguidas (agora cinco)…
Kimi Antonelli: Se me tivessem dito isso no início do ano, eu aceitava. Eu sabia que podia fazer um bom trabalho, mas ao mesmo tempo podia ser muito difícil, porque o George é muito, muito rápido. Mas tem sido um começo excelente e o objectivo é manter o embalo, continuar a maximizar o resultado, continuar a elevar a fasquia. É, obviamente, uma oportunidade enorme e só queres tirar o máximo partido disso.
Somar vitórias corrida após corrida dá mais confiança e, por consequência, mais andamento, certo?
Depois da primeira vitória senti que tinha partido o gelo. Ou como quando desbloqueias um novo nível num videojogo. Com mais confiança, conduzes com mais liberdade, consegues desfrutar muito mais de todo o fim-de-semana. Quando vejo as imagens onboard do ano passado e comparo com este ano, noto uma diferença enorme - até na posição das minhas mãos no volante; agora pareço muito mais relaxado… é uma diferença grande. E dá uma sensação óptima.
Porque o carro também é claramente melhor este ano?
O facto de o carro ser rápido ajuda, sem dúvida, mas conta também ter um ano de experiência. Já sabes muito melhor o que esperar. Tens mais controlo sobre a situação, estás mais consciente do teu potencial, conheces melhor a equipa e percebes como gerir a tua energia ao longo do fim-de-semana. Hoje conheço-me muito melhor: o que preciso, o que não preciso, e como me devo gerir durante um fim-de-semana de corrida para estar sempre a 100 por cento quando estou no carro.
Ainda és muito jovem. O rapaz de 19 anos está em conflito com o piloto de F1?
Antes de mais, tento ser eu próprio, mesmo no circuito. Tento trazer muita energia boa para a equipa, levo muito do meu lado italiano para o grupo, e tento aproveitar ao máximo o tempo com a equipa. Também no que toca a criar uma boa ligação com os mecânicos e os engenheiros. Isso é importante para construir uma dinâmica realmente forte dentro da equipa, e permite-te, enquanto piloto, desfrutar ainda mais do fim-de-semana - não apenas quando estás a conduzir.
Alguma vez perdes a cabeça?
Sim. Mas dentro do carro, não fora. Tento não mostrar muito por fora quando fico frustrado ou zangado; tento guardar para mim. Quero manter a energia positiva, não quero trazer demasiada negatividade nos maus momentos. [pausa] Não é como se eu estivesse sempre feliz e estivesse tudo bem. Eu também me passo.
O teu pai chama-te à atenção?
[riso] Agora ele está muito mais tranquilo. Ainda me dá uns “puxões de orelhas” de vez em quando. Mas fá-lo da forma certa, de forma construtiva.
Pareces ter uma maturidade emocional avançada para a tua idade.
Bem, tenho uma grande equipa por trás e uma grande família. O meu pai também foi piloto; tem a sua própria equipa de corridas e está no desporto há mais de 30 anos. Ele garante sempre que eu mantenho os pés no chão, que continuo focado no objectivo final e que não me deixo levar por distracções externas. Estou com a Mercedes desde 2018, portanto cresci com eles.
Em Itália tratam-te como uma estrela do rock? Precisas de seguranças?
Está tudo bem. Eu continuo a sair. Claro que agora sou parado com muito mais frequência, mas não vejo isso como algo mau. Há momentos em que só queres estar sozinho, mas acabei de me mudar para San Marino e agora tenho o meu próprio espaço, por isso consigo relaxar e…
Deixar a loiça suja no lava-loiça?
Não, não, eu ainda tenho de fazer as minhas tarefas.
Sabes onde está a máquina de lavar?
Sim, sim. Mas tive de aprender. A primeira vez que usei a máquina de lavar, fiz um pequeno desastre porque misturei as cores erradas.
Todos já passámos por isso, Kimi, não te preocupes.
Mas agora aprendi a lição… Continuo a voltar a Bolonha para ver os meus amigos e ir jantar fora. Paro para falar, sim, mas desde que as pessoas sejam respeitadoras, é porreiro. Na verdade, até gosto.
Tens um Mercedes-AMG GT, mas há algum carro que queiras mesmo ter?
O meu carro de sonho é um Project One. É um grande passo, e eu adorava experimentar um. Preciso de ganhar alguns campeonatos do mundo antes de conseguir ter um, mas adoro carros no geral. Sempre adorei.
Que fotografias de carros tinhas na parede do quarto?
Na verdade, tinha uma fotografia do Ayrton Senna e também algumas do Gilles Villeneuve. O meu pai era um enorme fã dele. Temos aquela foto famosa dele em contra-brecagem total lá em casa. Vi imagens dele na corrida em que teve o acidente e conduziu o carro com três rodas [GP dos Países Baixos, 1979]. E também o duelo com o Arnoux [GP de França, 1979]… dois pilotos a lutar a sério, sem poupar nada. Eu adorava experimentar carros mais antigos, algo com motor V12 ou V10.
Quão complicados são os carros deste ano para conduzir?
É fascinante. A tecnologia deu um salto enorme; os carros são incrivelmente rápidos e, ao mesmo tempo, muito complicados. É por isso que temos tantas pessoas no circuito e na fábrica a construí-los, a desenvolvê-los. Hoje em dia o nível é simplesmente elevadíssimo.
Adorava experimentar carros mais antigos, algo com V12 ou V10
Como gostas de afinar o carro?
Bem, obviamente trata-se de encontrar o equilíbrio certo, mas eu prefiro um carro que rode do que um carro com tendência para subviragem. Depois depende do circuito. No Mónaco queres um carro que rode bem porque as velocidades são mais baixas; já num circuito como Silverstone queres algo um pouco mais estável, para conseguires carregar mais velocidade para dentro das curvas. Queres o máximo de potencial na frente possível sem comprometer demasiado a traseira. Mas há pistas em que conduzes com mais sobreviragem, e pistas em que vais um pouco na direcção oposta.
Agora entrámos na fase europeia do campeonato. Como é que isso te sabe?
As pessoas dizem: ‘A Europa foi má no ano passado’ e coisas assim. Mas eu sei o que sou capaz de fazer, por isso vamos esperar para ver. Espero que possamos fazer muito bem até à pausa de verão e, depois, retomar a partir do ponto onde terminarmos.
Vamos ao que realmente importa - a comida da tua avó é a melhor de Itália?
Sim.
Mas não é verdade que a comida de qualquer avó italiana é a melhor?
Sim, talvez. Mas não tão boa como a minha. A mãe da minha mãe. Ela é do Véneto, mas mudou-se para a Emília-Romanha. O prato de assinatura dela é gramigna com salsiccia [uma massa encaracolada com salsicha] e também tagliatelle al ragù. A minha tia, a irmã da minha mãe, trabalha numa loja de massas. Eles fazem massa fresca - tagliatelle e tortellini - e é incrível. É em Bolonha. No inverno, gosto tanto… até demais, na verdade.
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