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Produtos proibidos no supermercado: corantes, E171 e pesticidas na Europa

Homem e criança no supermercado com carrinho cheio de frutas e legumes, escolhem cereais nas prateleiras.

Quando passeamos pelos corredores de um supermercado, é fácil sentir segurança: tudo parece fiscalizado, controlado e “em ordem”. Só que a realidade é bem menos confortável. Entre importações, brechas legais e controlos incompletos, continuam a surgir em Portugal, na Europa e noutros mercados europeus alimentos com substâncias que, em teoria, já não deveriam chegar ao prato. E não se trata apenas de produtos “exóticos”: há casos em cereais de pequeno-almoço, doces, bebidas, fruta e legumes.

Corantes perigosos ao pequeno-almoço: o que escondem produtos para crianças

Um exemplo recente, mostrado num programa francês de defesa do consumidor, ilustra como o problema pode estar perto da rotina de muitas famílias. Um especialista em comércio pediu a uma nutricionista que analisasse vários produtos comprados numa grande cidade. A selecção era banal: cereais coloridos para crianças, um condimento de pepino em frasco e uma soda de pêssego retirada do frigorífico.

Os resultados foram preocupantes:

  • Cereais de pequeno-almoço para crianças: presença de vários corantes sintéticos (incluindo tons fortes de vermelho, amarelo e azul), associados a hiperactividade e dificuldades de concentração em crianças.
  • Produto de pepino: continha sulfato de alumínio (E520) como estabilizante - uma substância que pode sobrecarregar os rins e o sistema nervoso.
  • Limonada de pêssego: com um corante classificado como provavelmente cancerígeno. Bastam duas a três latas por dia para ultrapassar o limite considerado seguro.

"Alimentos que parecem uma guloseima inofensiva podem conter substâncias para as quais as autoridades já mostraram cartão vermelho há muito tempo."

Os produtos dirigidos a crianças são especialmente sensíveis. Pesam menos, metabolizam de forma diferente e, muitas vezes, repetem os mesmos snacks dia após dia. Resultado: compostos problemáticos podem acumular-se rapidamente sem que os pais se apercebam.

O caso E171: proibido na Europa, à venda em produtos dos EUA

Um dos exemplos mais conhecidos é o dióxido de titânio, frequentemente indicado na lista de ingredientes como E171. Este corante branco era usado para dar um aspecto “perfeito” a rebuçados, coberturas de bolachas, drageias e até pasta de dentes.

Depois de vários estudos apontarem para um possível risco de cancro, a UE retirou o E171 da lista de substâncias autorizadas em alimentos. Desde 2020, este ingrediente é oficialmente proibido em comida na Europa.

Apesar disso, o E171 continua a aparecer nas prateleiras - mas por vias indirectas. Nos EUA, o dióxido de titânio permanece permitido. Doces, cereais de pequeno-almoço ou produtos de pastelaria importados da América do Norte podem continuar a incluí-lo. Se a mercadoria cumprir formalmente as exigências de importação (ou simplesmente não for detectada), acaba por chegar a lojas especializadas e, por vezes, até a grandes superfícies.

Associações de defesa do consumidor descrevem isto como uma “lacuna regulatória”: uma substância pode estar proibida localmente e, ainda assim, regressar na prática através de produtos transformados importados.

Pesticidas na fruta e nos legumes: proibidos e, mesmo assim, no carrinho

A conversa não se limita aos aditivos. Um programa televisivo com foco ambiental mandou analisar amostras de fruta e legumes comprados em grandes cadeias. A atenção recaiu sobre produtos importados, sobretudo da Ásia e da América do Sul.

Os dados laboratoriais pareceram um regresso ao passado:

  • Pomelos da China: detecção de duas substâncias classificadas como prejudiciais à reprodução.
  • Uvas do Peru: resíduos de vários pesticidas, incluindo um composto associado ao declínio de abelhas e outros insectos.
  • Outros produtos: chá, café e mais bens importados apresentaram vestígios de substâncias que já não podem ser usadas em campos agrícolas na Europa.

Muitos destes princípios activos desapareceram do mercado europeu devido a riscos a longo prazo - por exemplo, possíveis efeitos no sistema hormonal, na fertilidade ou no sistema nervoso. Noutros países, continuam a ser aplicados para manter a produtividade e controlar pragas.

"Quem escolhe fruta exótica ou legumes de ‘promoção’ no supermercado leva, por vezes, para casa resíduos químicos que por cá já foram banidos há muito tempo."

Como é que produtos proibidos passam, afinal, pelos controlos?

A UE funciona como um mercado comum - e isso também cria fragilidades. Um lote pode entrar por um Estado-membro e, a partir daí, circular quase livremente para outros países. Se determinados controlos só forem feitos no primeiro porto de entrada, torna-se muito mais difícil garantir uma vigilância completa ao longo do percurso.

Segundo autoridades francesas, desde 2021 foram introduzidos ilegalmente mais de um milhão de produtos não conformes. Num caso revelado, um grossista na região de Paris armazenava 17 toneladas de mercadoria em incumprimento - desde alimentos mal declarados até artigos com ingredientes proibidos.

Números destes sugerem que o que é apanhado pode ser apenas uma pequena parte. Muitos lotes terão sido consumidos muito antes de alguém recolher amostras.

O que os consumidores podem fazer, na prática

Ninguém consegue fazer análises laboratoriais a cada compra. Ainda assim, algumas medidas simples do dia-a-dia reduzem bastante o risco.

Atenção à origem e às armadilhas das importações

  • Dar prioridade a produtos regionais e nacionais: “Fabricado na Alemanha” ou uma origem UE claramente identificada tende a baixar o risco de pesticidas pouco comuns e de aditivos já proibidos na Europa.
  • Cautela com importações muito baratas: doces, snacks e bebidas extremamente baratos vindos de fora da UE podem ser apelativos, mas aparecem com mais frequência associados a ingredientes críticos.
  • Questionar a origem de produtos a granel: em mercados ou estabelecimentos de restauração, vale a pena perguntar pela proveniência e pelo fornecedor, sobretudo no caso de fruta, legumes e ervas aromáticas.

Ler os ingredientes - mesmo quando dá trabalho

A lista de ingredientes continua a ser a ferramenta mais útil. Quem compra com regularidade acaba por reconhecer sinais de alerta.

Indício O que pode significar
Muitos corantes (E1xx) em produtos para crianças Maior risco de alterações comportamentais, possíveis alergias
Aditivos de alumínio (por exemplo, E520) Sobrecarga dos rins e do sistema nervoso e, possivelmente, do cérebro
Lista longa de substâncias difíceis de pronunciar Alimentos muito processados, frequentemente com emulsionantes, edulcorantes e aromas
Origem pouco clara, várias línguas de importação na embalagem Risco de substâncias que aqui já foram proibidas

Para quem se perde nas numerações “E”, há ajuda digital. Aplicações como Yuka ou Quel Produit permitem digitalizar o código de barras e atribuem uma avaliação com base no perfil nutricional e no risco. Não substituem aconselhamento médico, mas poupam tempo e ajudam a filtrar muitos casos problemáticos.

Cuidados acrescidos com crianças, grávidas e quem consome sempre o mesmo

Muitos limites legais partem do pressuposto de um adulto médio. Crianças e adultos de menor peso ficam bastante abaixo disso e, com o mesmo consumo, acabam por ingerir proporcionalmente mais substâncias.

Quem bebe a mesma limonada todos os dias, come doces muito coloridos com frequência e ainda consome muita fruta importada pode chegar mais depressa a níveis que as autoridades consideram “críticos”. O risco é ainda maior em crianças com baixo peso e em grávidas.

Por isso, a recomendação médica tende a ser pragmática:

  • Encarar doces e bebidas de cores muito fortes como excepção.
  • Experimentar novas marcas importadas primeiro em pequenas quantidades e observar reacções.
  • Preferir variedade alimentar, em vez de repetir continuamente os mesmos produtos preparados.

Porque este tema vai ganhar ainda mais importância

Com o crescimento do comércio online e o surgimento constante de novos canais de importação, aumenta a diversidade à disposição - e também a probabilidade de certos problemas só serem detectados tarde. Em paralelo, cresce a quantidade de estudos sobre efeitos a longo prazo de aditivos, nanopartículas e “cocktails” de pesticidas.

Uma substância isolada pode ser considerada “aceitável” por estar abaixo de um limite. O desafio surge com o chamado “efeito de mistura”: vários químicos actuam em conjunto, mesmo quando cada um, isoladamente, fica por pouco abaixo do valor máximo. A ciência ainda procura compreender melhor estas combinações e há muito por esclarecer.

No dia-a-dia, a regra prática é simples: quanto menos produtos ultraprocessados entrarem no carrinho, menor a mistura difícil de controlar de corantes, estabilizantes, pesticidas e solventes. Optar mais vezes por alimentos frescos e pouco transformados e, no restante, olhar com mais atenção para rótulos e origem já reduz o risco de forma significativa - sem abdicar totalmente do prazer e da conveniência.


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