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Doxiciclina para acne associada a menor risco de esquizofrenia

Adolescente sentado à mesa a discutir medicamentos com profissional de saúde numa consulta médica.

Um antibiótico frequentemente receitado para controlar a acne foi associado a uma menor probabilidade de vir a desenvolver esquizofrenia.

O que o estudo sugere sobre doxiciclina e esquizofrenia

Num novo estudo liderado por investigadores da Universidade de Edimburgo, adolescentes acompanhados em serviços de saúde mental que tomaram doxiciclina apresentaram, em adulto, menor probabilidade de receber um diagnóstico de esquizofrenia do que aqueles que usaram outros tipos de antibióticos.

Apesar de estes resultados preliminares não demonstrarem que a doxiciclina previne a esquizofrenia, os autores defendem que a forma como o fármaco influencia respostas imunitárias, inflamação e morte celular programada poderá ajudar a travar alterações neurológicas associadas à doença.

"Os dados observacionais usados neste estudo não podem fornecer evidência definitiva de uma relação causal entre o tratamento com doxiciclina e a redução do risco de esquizofrenia, o que significa que serão necessárias mais investigações", concluem os autores.

"No entanto, estes resultados levantam a possibilidade, ainda que provisória mas entusiasmante, de que o tratamento com doxiciclina possa reduzir o risco de esquizofrenia em doentes psiquiátricos adolescentes e apontam para novas e importantes oportunidades terapêuticas para a investigação futura na prevenção de doença mental."

A esquizofrenia é uma condição grave de saúde mental que afeta 23 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo a maioria diagnosticada no fim da adolescência ou na casa dos vinte anos.

A doença pode surgir de forma súbita, provocando psicose. Entre os sintomas mais comuns estão delírios persistentes, alucinações, pensamento desorganizado, agitação extrema ou isolamento social.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de duas em cada três pessoas com psicose não recebem cuidados especializados de saúde mental.

Doxiciclina na acne e possíveis efeitos no cérebro

A doxiciclina é um antibiótico de largo espetro, muitas vezes prescrito a adolescentes para acne vulgar, e alguns estudos recentes sugerem que pode ter efeitos neuroprotetores, uma vez que consegue atravessar a barreira hematoencefálica.

Em 2024, um estudo dinamarquês concluiu que este antibiótico com capacidade de penetração no cérebro estava associado a uma taxa de incidência significativamente mais baixa de atribuição de pensão de invalidez entre doentes com esquizofrenia - um indicador do impacto que a doença pode ter no quotidiano.

Para aprofundar o tema, o psiquiatra da infância e adolescência Ian Kelleher, da Universidade de Edimburgo, liderou uma equipa internacional numa análise de dados de mais de 56,000 pessoas nascidas na Finlândia entre 1987 e 1997. Todas tinham recorrido a serviços de saúde mental durante a adolescência e também tinham sido medicadas com antibióticos na juventude.

Comparando com pares que receberam outros antibióticos, os participantes tratados com doxiciclina apresentaram um risco 30 to 35 percent mais baixo de desenvolver esquizofrenia ao longo da década seguinte, descendo de uma probabilidade de 2.1 percent entre quem tomou outros antibióticos para 1.4 percent entre quem tomou doxiciclina.

Uma hipótese é que a doxiciclina esteja a eliminar do corpo - e possivelmente do cérebro - um agente infeccioso que possa contribuir para o desenvolvimento da esquizofrenia. Outra possibilidade é o antibiótico atuar diretamente na inflamação cerebral e na forma como o cérebro se organiza em termos de ligações.

Há pistas vindas de trabalhos com outros antibióticos. Um estudo de 2019, com células estaminais obtidas de pessoas com esquizofrenia e de voluntários saudáveis, observou que a minociclina reduz a poda excessiva de ligações sinápticas, um mecanismo que tem sido implicado na esquizofrenia.

Tanto a minociclina como a doxiciclina pertencem à classe das tetraciclinas, pelo que poderão existir semelhanças no modo de ação.

A adolescência como janela de intervenção

Com base em dados de saúde da Finlândia, Kelleher e os seus colegas verificaram que quase metade de todas as perturbações psicóticas diagnosticadas na população ocorreu em pessoas que tinham frequentado serviços de psiquiatria na adolescência.

Na perspetiva dos autores, este período pode ser uma altura particularmente favorável para intervir, recorrendo a medicamentos como a doxiciclina para diminuir a probabilidade de progressão para uma condição mais grave.

"Até metade das pessoas que desenvolvem esquizofrenia tinha anteriormente recorrido a serviços de saúde mental na infância e adolescência por outros problemas de saúde mental", afirma Kelleher.

"Neste momento, porém, não temos intervenções que se saiba reduzirem o risco de estes jovens virem a desenvolver esquizofrenia. É isso que torna estes resultados entusiasmantes."

O estudo foi publicado na Revista Americana de Psiquiatria.

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