Sentiu, de repente, a coxa a aquecer de forma estranha - como se se tivesse encostado demasiado a um radiador. Logo a seguir veio um cheiro forte e acre, daqueles que fazem as pessoas franzir o nariz e olhar em volta à procura da origem. Levantou-se num salto, deu uma palmada no bolso e ouviu-se o tilintar de moedas a cair no chão. Junto delas, uma pequena pilha AA - tão quente que já não se conseguia pegar nela.
As pessoas ficaram a olhar. Alguém gritou para a deitar fora. No interior das calças de ganga já se via uma marca ligeira de chamuscado. O comboio continuou o trajecto. Tudo aconteceu em menos de um minuto.
Ainda assim, naquele instante confuso e demasiado rápido, houve um facto incontornável: um bolso, algumas moedas, uma pilha solta… e um quase-incêndio difícil de apagar.
Quando objectos do dia a dia se tornam perigosos sem aviso
É provável que também faça isto sem pensar. Abre uma gaveta, apanha duas ou três pilhas sobresselentes e mete-as no bolso ao lado do troco, das chaves, talvez de uma pen USB, e sai a correr. Parece inofensivo - até prático. Como as pilhas estão por todo o lado, deixam de parecer algo com risco.
Essa sensação de segurança dura até ao momento em que uma delas aquece o suficiente para lhe queimar a perna.
À primeira vista, uma pilha não intimida ninguém. É apenas um pequeno cilindro metálico (ou uma “moedinha” achatada), escondido num comando, num rato sem fios ou noutro dispositivo. Mas, quando fica encostada a moedas dentro do espaço apertado e húmido de um bolso de calças, pode transformar-se silenciosamente num aquecedor improvisado. E não há etiqueta de aviso a gritar-lhe dentro do bolso. Quando dá por ela, muitas vezes o estrago já começou.
Em 2017, um homem no Idaho apareceu nas notícias depois de as calças de ganga terem literalmente pegado fogo numa loja. Não foi por causa de um telemóvel avariado nem de um isqueiro. O problema foi um conjunto de pilhas soltas no bolso que tocou em algumas moedas. As imagens de videovigilância mostravam-no a bater aflito na perna, com fumo a subir, enquanto clientes se afastavam.
Os paramédicos trataram-no por queimaduras de segundo grau na coxa. Ele tinha andado assim pouco mais de um minuto antes de a situação se agravar. Bastaram esses segundos. E histórias semelhantes aparecem em jornais locais por todo o mundo: pessoas a conduzir, sentadas ao computador, a entrar num avião, e de repente com um bolso que parece estar a arder.
Numa escala menor, há muitos casos que nunca chegam a ser notícia. Um calor estranho. Uma mancha acastanhada no tecido. Uma pequena bolha na pele que dói mais do que aparenta. Como parece improvável, muita gente nem sequer liga o episódio à pilha que levou nesse dia “só por precaução”.
A explicação é simples e implacável. Uma pilha tem dois pólos: positivo e negativo. Se um objecto metálico - uma moeda, uma chave - encostar aos dois ao mesmo tempo, cria-se um curto-circuito. Em vez de libertar energia lentamente para um aparelho, a pilha descarrega-a rapidamente sob a forma de calor. Num bolso apertado, encostado ao corpo, esse calor não tem por onde se dissipar.
Em pilhas pequenas, isto pode significar aquecimento intenso num ponto, plástico a derreter, tecido a queimar e pele chamuscada. Nas pilhas de lítio pode ser pior, podendo ocorrer libertação de gás quente (venting) ou até uma pequena chama. O perigo não tem nada de misterioso: é física básica a encontrar um atalho através do seu troco.
A roupa também não é grande protecção. Algodão, poliéster e ganga podem queimar ou derreter. A pele reage depressa a temperaturas acima de 60°C. Uma pilha em curto-circuito pode ultrapassar esse valor em instantes. Não está apenas a levar “sobresselentes”; está a transportar uma fonte compacta de calor à espera do contacto certo.
Como transportar pilhas como quem sabe o que está a fazer
A solução mais simples é quase aborrecida: nunca leve pilhas soltas misturadas com objectos metálicos. Isto inclui moedas, chaves, clipes, pequenas ferramentas e até outra pilha, se os terminais puderem tocar. Se tiver mesmo de levar uma pilha no bolso, dê-lhe um espaço só dela. Um bolso para dinheiro e chaves; outro bolso para pilhas - sempre separados.
Melhor ainda é isolar os terminais com uma protecção básica. Sempre que possível, mantenha a pilha na embalagem original. Se já a abriu, use um saco de plástico, um pedaço de plástico-bolha ou um estojo próprio para pilhas. Custam pouco, duram anos e transformam um “talvez dê para incêndio” num “é só um bolso”.
No caso das pilhas de 9 volts - as rectangulares com dois terminais no topo - cubra os contactos com fita isoladora quando estiverem guardadas como sobresselentes ou à espera de reciclagem. Aqueles dois “pinos” fazem curto-circuito com uma moeda ou uma chave com uma facilidade absurda. A primeira vez pode parecer exagero. Depois de ver um vídeo de uma pilha de 9V a iniciar um fogo numa gaveta, passa a parecer sensato.
Quase ninguém acorda a pensar em segurança de pilhas. A maioria limita-se a pegar nas coisas e sair. Numa manhã apressada, troca as pilhas do rato sem fios, mete as antigas no bolso “só até encontrar um ecoponto” e esquece-se delas. É provavelmente o cenário mais comum. Inventamos pequenos riscos ao longo do dia só para poupar dez segundos.
E num comboio cheio, o problema não é apenas seu. Um bolso a fumegar assusta quem está à volta, pode accionar alarmes e atrasar transportes. Um incidente pequeno passa a envolver pessoas que não escolheram participar. Num avião, a tripulação vai reagir depressa - e não vai querer ser o motivo de toda a gente se levantar e começar a cheirar o ar.
Num plano mais pessoal, as queimaduras são traiçoeiras. Doem na hora e voltam a doer depois, quando tem de trocar um penso ou vestir calças por cima de pele sensível. Ficar com uma marca em forma de moeda na perna por causa de uma pilha AA barata é uma história péssima de contar. Todos pensamos “isso não me acontece” até ao segundo em que acontece.
“Foi como se tivesse encostado um ferro em brasa directamente à perna”, contou um passageiro depois de um conjunto de pilhas AA soltas ter feito curto-circuito no bolso com moedas. “Agarrei nas calças e senti qualquer coisa tão quente que quase me queimava os dedos. Nunca imaginei que duas pilhas pudessem fazer isto.”
Há uma forma fácil de tornar isto irrelevante na sua vida: criar uma regra pequena e fixa. As pilhas ou estão dentro de um aparelho, ou na embalagem, ou num estojo. Em mais lado nenhum. Nada de bolso “temporário”. Nada de “só até chegar ao ecoponto”. Essa regra decide por si antes de a mão ir parar à ganga.
- Use estojos de plástico para pilhas sobresselentes em mochilas, carros ou gavetas.
- Guarde pilhas usadas numa caixa dedicada até ao dia de reciclagem.
- Cubra os terminais das pilhas de 9V com fita antes de as guardar ou deitar fora.
- Mantenha pilhas sempre afastadas de moedas, chaves e ferramentas.
- Deite fora de imediato pilhas danificadas, inchadas ou com fugas.
Uma mudança mínima de hábito que o protege sem dar nas vistas
Há algo muito “actual” neste risco. Andamos com mais pequenos aparelhos do que nunca, e com mais energia concentrada em pouco espaço. Exigimos portabilidade, potência e velocidade - e depois estranhamos quando essa energia se volta contra nós nos locais mais banais: no fundo de uma mala, no canto de uma gaveta, ou encostada ao corpo num bolso de calças com um punhado de euros.
Depois de ver uma foto de uma moeda derretida colada a uma pilha, ou uma queimadura quadrada a condizer com o formato de uma 9V, deixa de olhar para “pilhas sobresselentes” da mesma forma. A boa notícia é que evitar isto não exige equipamento especial, treino ou sermões. Exige apenas uma decisão, repetida algumas vezes, até se tornar automática.
Da próxima vez que estiver prestes a sair de casa e, por instinto, for meter duas pilhas no bolso, pare meio segundo. É nessa pausa que a mudança acontece. Talvez as coloque num estojo, talvez no bolso interior com fecho da mala, ou decida levá-las mais tarde. Sejamos honestos: ninguém faz isto religiosamente todos os dias, mas nos dias em que o fizer pode ser precisamente nos dias de que se lembra.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Pilhas + moedas = curto-circuito | O metal liga os dois pólos e liberta a energia sob a forma de calor intenso | Perceber como um simples bolso pode causar queimaduras ou iniciar um foco de incêndio |
| Transportar pilhas isoladas | Usar a embalagem original, estojos de plástico ou isolar os terminais das pilhas de 9V | Reduzir quase a zero o risco de sobreaquecimento ou fumo em deslocações |
| Adoptar um reflexo simples | As pilhas só vão para um aparelho, um estojo ou um recipiente dedicado | Proteger a pele, a roupa e quem o rodeia sem complicações diárias |
FAQ:
- Uma pilha AA ou AAA, sendo pequena, consegue mesmo queimar a roupa? Sim. Quando entra em curto-circuito por contacto com moedas ou chaves, mesmo uma pilha pequena pode aquecer o suficiente para chamuscar tecido e provocar queimaduras dolorosas na pele.
- As pilhas tipo botão no bolso também são perigosas? Podem ser, sobretudo junto a moedas soltas. As pilhas tipo botão podem fazer curto-circuito e aquecer; além disso, representam um risco de asfixia e ingestão para crianças.
- Isto é apenas um problema das pilhas de lítio? Não. Pilhas alcalinas, NiMH e de lítio podem todas fazer curto-circuito se os terminais forem unidos por objectos metálicos sob pressão.
- O que devo fazer se uma pilha no bolso começar a aquecer? Vá para um local seguro, retire a pilha com cuidado (idealmente com algo não metálico), coloque-a numa superfície não inflamável e deixe-a arrefecer.
- Como devo guardar pilhas sobresselentes em casa ou em viagem? Mantenha-as na embalagem original ou num estojo plástico, separadas de objectos metálicos, e guarde-as num local fresco e seco, fora do alcance de crianças.
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