Fragmentos de ADN deixados por vírus que infetaram os nossos antepassados longínquos poderão ser “incendiários” de nova vida humana, segundo um novo estudo.
ADN viral antigo no genoma humano
Até 9 percent do nosso ADN é constituído por material genético de antigos invasores virais. Estes vestígios de retrovírus endógenos infiltraram-se no material genético das células reprodutivas dos nossos antepassados há milhões de anos e, desde então, ficaram integrados de forma permanente no nosso “plano” genético.
Entre esses vestígios, o grupo LTR5Hs surgiu na nossa linhagem ancestral há cerca de 5 million anos, depois de humanos e outros grandes símios se terem separado dos macacos do Velho Mundo, como babuínos e macacos.
Embora isto pareça remoto, em termos evolutivos trata-se de uma alteração relativamente recente do nosso genoma.
Experiência com blastoides e o papel de LTR5Hs
“Os nossos resultados ilustram como genes surgidos recentemente… podem conferir funções essenciais ao desenvolvimento em humanos”, escrevem no artigo a bióloga Raquel Fueyo, da Universidade de Stanford, e os seus colegas.
Fueyo e a sua equipa recorreram a uma esfera de células estaminais induzidas a imitar um blastocisto, a fase do desenvolvimento embrionário cerca de cinco dias após a fertilização. Este modelo 3D, ou blastoide, reproduz a etapa imediatamente anterior à implantação do embrião no revestimento do útero.
Quando os investigadores desativaram um conjunto destes genes virais remanescentes, conhecido como LTR5Hs, o modelo embrionário ou se transformou num aglomerado desorganizado de células, ou morreu. Sem os LTR5Hs, a camada intermédia (epiblasto) do blastoide - que apresenta três camadas de tecido - não se formou corretamente.
“Muitas das inserções genómicas de LTR5Hs no genoma humano são exclusivas da nossa própria espécie”, explicam Fueyo e a equipa.
“Mostrámos que a atividade de [LTR5Hs] é necessária para a formação do blastoide e para a identidade das linhagens.”
Regulação de ZNF729 e vantagens evolutivas
A equipa observou ainda que este elemento regulador é responsável por aumentar a expressão de outras sequências próximas, incluindo um gene conhecido como ZNF729, que desempenha um papel fundamental na multiplicação de células estaminais e na definição da identidade celular. Uma baixa expressão de ZNF729 faz com que uma camada inteira de tecido embrionário se forme de forma incorreta.
Os investigadores suspeitam que, ao potenciar ZNF729, o grupo de genes LTR5H o tenha tornado mais “aderente”, o que teria dado aos nossos antepassados uma vantagem evolutiva significativa.
“Estas observações sugerem que a remodelação evolutiva de redes de regulação genética pode resultar não só em inovação específica de espécie, como também criar novas dependências e atribuir essencialidade a elementos [reguladores] e genes surgidos recentemente”, concluem os investigadores.
Esta investigação foi publicada na Nature.
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