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Exercício aeróbio moderado remodela assimetricamente os gânglios estrelados que controlam o coração

Investigador em laboratório observa rato numa plataforma com modelo anatómico de coração e equipamento de ECG.

O coração não funciona totalmente em piloto automático. Dois pequenos aglomerados de nervos - um de cada lado da base do pescoço - controlam os sinais que aceleram ou abrandam o ritmo cardíaco.

Durante muito tempo, assumiu-se que o exercício iria influenciar ambos os aglomerados de forma idêntica. No entanto, dados recentes apontam noutra direcção.

Após várias semanas de treino moderado, surgiram alterações estruturais muito diferentes entre o lado esquerdo e o direito. A discrepância foi tão marcada que, no fim, um dos lados ficou com quatro vezes mais neurónios do que o outro.

O piloto automático do coração

O organismo mantém o batimento cardíaco sem qualquer esforço consciente. Na parte inferior do pescoço e no topo do tórax existe um pequeno par de aglomerados nervosos conhecido como gânglios estrelados.

Estes gânglios ajudam a orientar esse ritmo automático e aceleram o coração em situações de stresse, esforço físico ou alarme súbito.

Uma equipa da Universidade de Bristol, liderada pelo Dr. A. Augusto Coppi, submeteu ratos a dez semanas de exercício aeróbio moderado numa passadeira.

De seguida, comparou os animais treinados com ratos não treinados, recorrendo a imagens 3D.

Até este trabalho, não tinha sido publicado um exame 3D tão detalhado dos gânglios após um período de treino.

Os resultados puseram em causa a ideia, há muito aceite, de que o sistema nervoso se adapta ao exercício de forma equilibrada entre os dois lados do corpo.

Uma resposta desigual

Nos ratos treinados, o gânglio estrelado direito passou a ter aproximadamente quatro vezes mais neurónios do que o esquerdo.

Nos animais sem treino não se observou uma diferença deste tipo. A assimetria surgiu apenas depois das corridas. Ou seja, a discrepância apareceu como resposta ao exercício e não por qualquer característica pré-existente.

A neuroplasticidade é o processo através do qual o tecido nervoso se reorganiza e “refaz” ligações. É um fenómeno estudado há muito no cérebro, mas muito menos no circuito que comanda o coração.

Trabalhos anteriores já tinham mostrado que o treino aeróbio reduz a frequência cardíaca em repouso e torna mais regular a variação entre batimentos consecutivos.

Um estudo com atletas mais velhos e treinados, por exemplo, encontrou uma variabilidade da frequência cardíaca claramente superior à de pessoas da mesma idade sem treino.

Nada nesses resultados anteriores sugeria que um lado do corpo pudesse evoluir de modo diferente do outro. Os dados de Bristol obrigam a reavaliar esse cenário.

Células que cresceram, células que encolheram

Ao nível celular, as mudanças seguiram direcções opostas em cada lado.

No gânglio esquerdo, os neurónios aumentaram de tamanho, quase duplicando o volume. No gânglio direito, aconteceu o inverso: os neurónios diminuíram.

Apesar disso, ambos os aglomerados reduziram o volume total depois do treino, com uma diminuição mais pronunciada do lado direito.

No lado direito, neurónios ligeiramente menores ficaram mais densamente agrupados num gânglio mais pequeno. No lado esquerdo, havia menos neurónios, mas de maior dimensão.

Alterações estruturais opostas deste tipo, motivadas exclusivamente pelo exercício, contrariaram as expectativas habituais.

Até este estudo, ninguém tinha descrito que o treino pudesse empurrar os dois lados de um gânglio nervoso cardíaco para mudanças “em espelho”.

Um padrão com relevância clínica

Esta divergência entre esquerda e direita não é apenas uma curiosidade científica. Em algumas cardiopatias graves, os médicos já intervêm directamente nos gânglios estrelados.

Bloqueios nervosos e procedimentos cirúrgicos podem acalmar arritmias persistentes e dor torácica severa, reduzindo a actividade nervosa nesses aglomerados.

Os mesmos procedimentos também são por vezes utilizados na síndrome do coração partido, uma forma temporária de insuficiência cardíaca desencadeada por choque emocional ou físico intenso.

O regulador de intensidade do coração

Uma revisão de bloqueios do gânglio estrelado em doentes com arritmias resistentes a fármacos concluiu que o procedimento reduziu as perturbações do ritmo durante um a três dias.

A maioria dos casos publicados incidiu sobre o lado esquerdo, com base em pressupostos históricos sobre a sua predominância no controlo cardíaco.

“Estes aglomerados nervosos funcionam como um regulador de intensidade do coração e mostramos que o exercício regular e moderado remodela esse regulador de forma específica para cada lado”, afirmou Coppi.

Este padrão poderá, no futuro, ajudar os clínicos a afinar qual o lado mais indicado para cada intervenção.

Implicações para humanos

O estudo foi realizado em ratos, e Coppi foi claro quanto às limitações. Continua por responder se esta remodelação assimétrica também ocorre em animais maiores ou em seres humanos.

O objectivo dos próximos trabalhos é relacionar as mudanças estruturais com resultados funcionais.

A questão é perceber se o aumento do número de neurónios do lado direito e a expansão celular do lado esquerdo se traduzem em diferenças mensuráveis na forma como o coração actua em repouso e durante o esforço.

A equipa também irá procurar o mesmo padrão em animais maiores e em pessoas, usando métodos não invasivos que acompanham os sinais nervosos do coração sem recurso a cirurgia.

Se esta assimetria se confirmar em tecido humano, as implicações vão além da fisiologia do exercício.

Uma linha de base reconfigurada

Durante anos, o campo partiu do princípio de que o exercício alterava de forma uniforme a “cablagem” nervosa cardíaca nos dois lados.

Os novos dados indicam o contrário. O treino aeróbio parece empurrar os dois gânglios em direcções opostas: o direito termina com mais neurónios e o esquerdo com neurónios maiores.

Esta observação pode ser relevante para médicos que tratam doenças associadas a sinalização nervosa excessiva.

As intervenções sobre os nervos já variam em eficácia conforme o lado atingido. Este trabalho sugere que existe uma razão biológica por detrás dessa diferença.

Um artigo sobre o papel de descargas nervosas na síndrome do coração partido ilustra o que está em jogo quando esses sinais sobrecarregam um coração saudável. O estudo de Bristol identifica algo que a área ainda não tinha observado.

Significado no movimento

O exercício parece reprogramar de forma assimétrica os nervos que controlam o coração: mais neurónios à direita e neurónios maiores à esquerda.

Isto pode oferecer aos clínicos uma nova variável para considerar ao personalizarem tratamentos de perturbações do ritmo cardíaco e de condições cardíacas desencadeadas por stresse.

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