Uma nova linha de investigação indica que um reforço estratégico de azoto - fornecido não por sacos de fertilizante, mas por espécies de árvores escolhidas com critério - pode acelerar de forma marcada esta regeneração e ajudar as florestas tropicais a reter muito mais carbono, num momento decisivo para o clima.
Florestas jovens: grandes ganhos com azoto extra
Num trabalho conduzido no Panamá, uma equipa demonstrou que a disponibilidade adicional de azoto pode quase duplicar o crescimento de florestas tropicais jovens que estão a recuperar após uso agrícola, elevando de forma substancial a quantidade de dióxido de carbono que capturam durante, pelo menos, uma década.
Investigadores do Instituto Smithsonian de Investigação Tropical e de instituições parceiras realizaram uma experiência de campo ao longo de quatro anos, em parcelas distribuídas pela bacia hidrográfica do Canal do Panamá. Essas parcelas cobriam um gradiente de idades e históricos de uso do solo:
- pastagens de gado recentemente abandonadas (menos de um ano sem uso)
- florestas em regeneração com 10 anos
- florestas secundárias com 30 anos
- florestas primárias com cerca de 600 anos
Todos os anos, durante três meses, as equipas deslocavam-se a pé até às parcelas e aplicavam fertilizantes com azoto, fósforo, ambos os nutrientes, ou nenhum. Em seguida, mediam cuidadosamente os troncos das árvores para acompanhar o crescimento e a biomassa.
"Nas florestas mais jovens, o azoto extra aumentou a biomassa das árvores em cerca de 95% face às parcelas sem fertilização, duplicando, na prática, o crescimento."
As áreas florestais que estavam a recuperar há uma década também apresentaram uma resposta expressiva: com fertilização azotada, o crescimento das árvores subiu aproximadamente 48%. Na prática, isto significa muito mais carbono retido em madeira e ramos, precisamente numa fase em que as florestas em regeneração têm uma elevada procura de nutrientes.
Florestas mais velhas atingem um “tecto” de nutrientes
Depois das primeiras décadas, o padrão alterou-se. As florestas com 30 anos e as florestas com cerca de 600 anos não registaram praticamente qualquer aumento de crescimento com a adição de azoto, sugerindo que, nesses estádios, a limitação passa a ser determinada por outros factores.
Já o fósforo - outro nutriente essencial - teve um impacto surpreendentemente reduzido em todas as idades analisadas. Nenhuma das parcelas mostrou uma resposta relevante de crescimento ao fósforo, quer aplicado isoladamente quer em conjunto com azoto.
"Os efeitos mais fortes estiveram muito concentrados: foram as terras recém-abandonadas e as florestas jovens em regeneração onde o azoto fez realmente a diferença."
Este comportamento indica que a escassez de nutrientes após a desflorestação não é permanente. À medida que as florestas envelhecem, a reciclagem interna de folhas e madeira, juntamente com entradas naturais de azoto, parece repor um equilíbrio que sustenta o crescimento sem necessidade de fertilização externa.
Porque é que os solos desflorestados têm dificuldade em recuperar
A conversão de floresta tropical em pastagens ou campos agrícolas remove não só as árvores, mas também um grande reservatório de nutrientes acumulado ao longo de séculos. A queima e a colheita retiram azoto e fósforo do sistema, e as chuvas intensas podem depois arrastar os nutrientes remanescentes do solo exposto.
Mesmo muitas décadas após o abandono do uso agrícola e o início da reflorestação natural, os cientistas conseguem ainda detectar os efeitos dessa perda. As árvores jovens enfrentam um verdadeiro estrangulamento de nutrientes: têm capacidade para crescer rapidamente, mas o “armário” do solo está quase vazio.
A importância disto ultrapassa em muito a escala local. As florestas tropicais são uma componente central do sumidouro global de carbono: absorvem mais dióxido de carbono do que emitem, compensando uma parte das emissões de gases com efeito de estufa geradas por actividade humana.
"Estima-se que as florestas tropicais em regeneração, por si só, captem uma grande parte do carbono absorvido anualmente por florestas em todo o mundo."
Por isso, acelerar a recuperação com uma gestão mais eficaz dos nutrientes pode trazer benefícios climáticos muito para além dos limites das parcelas estudadas no Panamá.
De sacos de fertilizante a árvores fixadoras de azoto
Os autores não defendem a aplicação de fertilizantes industriais em larga escala nos trópicos. Além de extremamente dispendioso, seria logisticamente pouco realista e ecologicamente arriscado.
Em alternativa, argumentam que perceber como o azoto limita a regeneração inicial pode orientar programas de reflorestação mais inteligentes. O instrumento-chave são as árvores que fixam azoto de forma natural.
As árvores fixadoras de azoto, frequentemente leguminosas, albergam bactérias simbióticas em pequenos nódulos nas raízes. Essas bactérias retiram azoto do ar - que é composto por cerca de 78% de gás azoto - e convertem-no em formas que as plantas conseguem utilizar.
"Ao plantar mais espécies fixadoras de azoto em projectos de restauro jovens, os gestores podem enriquecer o solo a partir de dentro e acelerar o armazenamento de carbono sem recorrer a insumos químicos."
Em florestas tropicais, muitas leguminosas nativas já desempenham este papel. Quando são incluídas em misturas de reflorestação, ajudam a reconstituir gradualmente a fertilidade do solo, ao mesmo tempo que sustentam um dossel diverso de outras espécies.
Como funcionam as árvores fixadoras de azoto
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Parceria nas raízes | As bactérias colonizam nódulos especiais nas raízes da árvore. |
| Captura de azoto | As bactérias convertem o gás azoto atmosférico em amónio, um nutriente para as plantas. |
| Crescimento da árvore | A árvore utiliza este azoto para produzir folhas, madeira e raízes. |
| Enriquecimento do solo | Folhas e raízes caídas decompõem-se, acrescentando azoto ao conjunto de nutrientes do solo. |
Com o passar do tempo, este mecanismo pode retirar povoamentos florestais jovens da “pobreza” de azoto, tornando-os mais produtivos e mais eficientes a captar dióxido de carbono.
O que isto significa para estratégias climáticas
O estudo no Panamá fornece uma evidência experimental rara para algo que muitos cientistas florestais suspeitavam há décadas: a perda de nutrientes pode travar a recuperação de florestas tropicais em antigas áreas agrícolas, mas entradas direcionadas de azoto conseguem inverter esse travão.
Para a política climática, os resultados reforçam a necessidade de proteger as florestas primárias existentes e, em paralelo, apoiar a reflorestação criteriosa de terras degradadas. As florestas em regeneração não são um tema secundário; representam uma fatia importante do orçamento global de carbono.
Projectos de restauro que integrem espécies fixadoras de azoto podem:
- aumentar o sequestro de carbono nos primeiros 10 a 20 anos
- reduzir a necessidade de fertilizantes industriais
- melhorar a saúde do solo e a resiliência à seca
- apoiar, ao longo do tempo, uma mistura mais diversa de espécies arbóreas
Estes ganhos são particularmente relevantes em regiões como a Amazónia e a América Central, onde grandes áreas de pastagens e terras agrícolas podem voltar a ser floresta com as políticas e os incentivos adequados.
Riscos, limites e questões em aberto
Embora as árvores fixadoras de azoto pareçam uma solução simples, a sua utilização exige prudência. Plantar demasiadas árvores de uma única leguminosa de crescimento rápido pode reduzir a biodiversidade global ou alterar o risco de incêndio. As espécies escolhidas têm de ser compatíveis com os ecossistemas locais, os direitos sobre a terra e as necessidades das comunidades.
Há ainda uma questão de calendário. Os benefícios mais fortes do azoto extra surgem nas primeiras décadas. Quem planeia restauros pode ter de pensar por etapas: usar fixadoras de azoto de forma mais intensa no início e, depois, permitir que espécies tardias e de crescimento mais lento assumam o protagonismo à medida que os solos recuperam.
Outra incógnita é a forma como as alterações climáticas vão interagir com a disponibilidade de nutrientes. O aumento de temperatura, mudanças nos padrões de precipitação e secas mais frequentes podem modificar a velocidade do ciclo do azoto nestes sistemas e a eficiência com que as florestas jovens o aproveitam.
Termos-chave sobre o clima que os leitores mais perguntam
Sumidouro de carbono: ecossistema ou processo que absorve mais dióxido de carbono da atmosfera do que emite. Florestas tropicais, turfeiras e oceanos são grandes sumidouros naturais.
Biomassa: massa total de material biológico vivo numa determinada área, geralmente medida como peso seco. Em florestas, a biomassa acima do solo refere-se sobretudo a troncos, ramos e folhas.
Floresta secundária: floresta que volta a crescer em terrenos anteriormente desmatados ou muito perturbados por actividade humana, ao contrário da floresta primária, que se manteve relativamente intacta durante séculos.
Para proprietários, ONG e governos que estejam a desenhar novos projectos de plantação de árvores ou de regeneração natural, estes resultados apontam para um ajuste claro e prático: dar às árvores fixadoras de azoto um papel central, sobretudo na primeira geração de plantação em pastagens exaustas ou campos agrícolas. Essa decisão pode ser a diferença entre uma floresta que regressa lentamente e outra que avança depressa, retirando muito mais carbono do ar durante as décadas críticas que se aproximam.
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