Os padrões de beleza sempre foram mudando, mas, na era das redes sociais, transformam-se a uma velocidade vertiginosa. Do minimalismo da “rapariga impecável” à estética do “luxo discreto”, cada novo ideal vende uma perfeição que quase ninguém consegue atingir - e isso alimenta a comparação e a insegurança.
E não são apenas as tendências nas redes sociais que fazem crescer este sentimento de inadequação. O nosso cérebro também entra na equação.
Neurociência dos padrões de beleza e dopamina
A neurociência mostra que o cérebro está preparado para reagir à beleza. Quando vemos um rosto considerado atraente, ativam-se circuitos cerebrais ligados à recompensa e à interação social - e é libertada dopamina, a hormona associada ao prazer.
A mesma dopamina pode ser libertada quando, por acaso, sentimos que correspondemos a um determinado padrão de beleza, o que torna essa experiência biologicamente gratificante.
Só que esta programação também nos torna mais vulneráveis. Com o tempo, o cérebro ajusta-se a esses ideais e passa a tratá-los como se fossem a norma.
A capacidade natural do cérebro para se adaptar (plasticidade), que foi uma vantagem evolutiva, hoje é aproveitada por um mundo digital que, de forma contínua, influencia a maneira como nos vemos.
Mesmo assim, perceber esta ciência pode ser encorajador. Se a perceção pode ser treinada, também pode ser reeducada - e isso abre espaço para recuperarmos o controlo sobre aquilo que a beleza significa.
Linha de base da beleza
Embora nasçamos com alguma preferência por traços simétricos ou esteticamente agradáveis - sinais que o cérebro associa à saúde e à aptidão genética -, o nosso sentido de beleza é altamente moldável. A neurociência indica que aquilo que consideramos atraente é influenciado pelo que vemos repetidamente e pelo que aprendemos a valorizar.
Esta adaptabilidade vem dos sistemas de recompensa e aprendizagem do cérebro, em particular de duas áreas conhecidas como núcleo accumbens e córtex orbitofrontal, que atualizam constantemente os seus “modelos” do que conta como recompensador ou desejável.
Com o passar do tempo, a exposição frequente a certos ideais - como pele sem poros visíveis ou corpos no estilo “chique de heroína” - pode alterar a nossa perceção do que é normal ou atraente. Os psicólogos chamam a isto o efeito da mera exposição: quanto mais vemos algo, maior é a probabilidade de passarmos a gostar.
Por exemplo, num estudo, as pessoas classificaram rostos como mais atraentes depois de os verem várias vezes. A atividade cerebral confirmou esta adaptação. Com a repetição, ficaram mais ativas as zonas ligadas à recompensa e ao reconhecimento facial - e os sinais elétricos do cérebro associados à atenção e à emoção tornaram-se mais fortes.
Ou seja, o cérebro estava, literalmente, a aprender a achar aqueles rostos mais recompensadores. Este mecanismo ajuda a perceber como a sociedade consegue ajustar-se tão depressa a novos padrões de beleza.
Esta plasticidade também significa que a nossa “linha de base da beleza” - a referência interna do que é atraente - pode deslocar-se com facilidade para direções pouco saudáveis. Quando os feeds das redes sociais estão cheios de imagens idealizadas e editadas, os nossos sistemas de recompensa começam a privilegiar esses sinais.
Um estudo de neuroimagem concluiu que pessoas expostas a rostos melhorados digitalmente passaram, depois, a mostrar respostas de recompensa mais fracas perante rostos reais - e sentiram-se menos satisfeitas com a própria aparência. Esta alteração no sistema de valoração do cérebro faz com que a beleza dependa menos da realidade e mais da repetição.
Redes sociais, filtros e consequências para a saúde mental
As redes sociais intensificam este fenómeno. Os algoritmos entregam-nos mais do que prende a nossa atenção, criando um ciclo de retroalimentação de uma beleza homogénea.
Isto pode aumentar a insatisfação com o corpo e a ansiedade com a aparência, sobretudo entre raparigas adolescentes. O uso frequente de filtros de beleza também foi associado a preocupações crescentes com a aparência e a uma perceção distorcida do que é real.
Interiorizar ideais tão estreitos pode ter consequências sérias para a saúde mental - como insatisfação corporal, ansiedade, depressão e comportamentos alimentares desregulados. Esta insatisfação pode evoluir para stress crónico, baixa autoestima ou afastamento social.
A comparação repetida com imagens idealizadas pode contribuir para quadros clínicos como a perturbação dismórfica corporal e a anorexia nervosa. A pressão para “ter determinada aparência” também pode conduzir a dietas crónicas, uso de esteroides ou cuidados de grooming compulsivos.
Talvez o efeito mais nocivo seja a passagem de a aparência ser apenas uma parte da identidade para ficar fortemente ligada ao valor pessoal, como resultado das pressões das redes sociais. Vigiar constantemente o aspeto físico tem sido fortemente associado à ansiedade e à motivação para as atividades do dia a dia.
Para muitas pessoas, a exigência de corresponder a ideais irrealistas transforma-se numa batalha diária pela saúde mental, com um custo social significativo: leva ao isolamento e pode até prejudicar o desempenho académico e a confiança profissional.
Construir resiliência
Compreender a neurociência por trás da perceção da beleza pode dar poder. Ao reconhecermos como o cérebro reage à beleza e como pode ser condicionado pelo ambiente, ganhamos margem para agir e melhorar a autoimagem.
O ponto essencial é que o cérebro é maleável. Se a exposição repetida a imagens idealizadas nos pode treinar a desejá-las, então imagens diversas e realistas podem reeducar esses mesmos circuitos numa direção mais saudável.
Selecionar o que consumimos nas redes sociais - incluindo diferentes tipos de corpo, idades e tons de pele - alarga aquilo que o cérebro passa a reconhecer como belo, ajudando a contrariar os ideais estreitos reforçados pelos algoritmos.
Também é importante perceber que ver imagens com filtros ativa centros de recompensa ricos em dopamina. Ou seja, não é que essas imagens provem uma beleza “superior”; é antes que reforçam um reflexo neural.
Criar resiliência implica ainda mudar o foco da recompensa. Os mesmos sistemas cerebrais que respondem à aparência também se ativam com conquistas, ligação aos outros, criatividade e bondade.
Ações simples, como deixar de seguir contas tóxicas, fazer pausas das redes sociais e praticar autodiálogo positivo, já demonstraram proteger o bem-estar e reajustar os nossos sistemas de recompensa.
A cultura contemporânea, impulsionada pelos media e pelas plataformas sociais, mostrou ser eficaz a manipular os nossos sistemas neurais por lucro e popularidade. Ao explorar a sensibilidade do cérebro à recompensa e aos sinais sociais, estas forças impõem ideais restritos de beleza que podem enraizar-se profundamente na nossa mente.
A ciência é clara: o cérebro responde ao que lhe é dado. Com este conhecimento, podemos reconhecer a manipulação e escolher recuperar o controlo sobre a forma como percebemos a beleza.
Laura Elin Pigott, Professora Sénior de Neurociências e Neurorreabilitação, Coordenadora de Curso na College of Health and Life Sciences, London South Bank University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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