Investigadores descobriram que uma dieta muito baixa em proteína, quando combinada com as bactérias intestinais certas, consegue converter gordura comum numa forma que queima calorias em ratos.
Esta descoberta volta a colocar a gordura corporal sob uma nova luz: algo que o intestino pode ajudar a reprogramar, abrindo caminho a terapias pensadas para reproduzir esse efeito.
As células de gordura mudam
Na gordura da virilha dos ratos tratados, muitas células que antes pareciam inactivas começaram a produzir proteínas ligadas à geração de calor - proteínas normalmente observadas após exposição ao frio.
A partir dessas alterações, a Dra. Kenya Honda, da City of Hope e da Keio University, demonstrou que a dieta não funcionava em ratos criados sem micróbios intestinais.
Seguindo essa pista, Honda identificou que o efeito em falta dependia de bactérias capazes de transformar a escassez alimentar em sinais químicos que se espalhavam por todo o organismo.
A conclusão, desde o início, foi inequívoca: a alimentação era importante, mas só produzia o resultado quando existiam micróbios adequados para “interpretar” essa informação.
Sinais que remodelam a gordura
Um dos recados enviados pelos micróbios modificou os ácidos biliares - químicos digestivos que também actuam como sinais - e empurrou células adiposas imaturas para um estado de queima de gordura.
Outro sinal levou o fígado a libertar FGF21, uma hormona que ajuda a regular o uso de combustível durante o stress metabólico.
“Descobrimos que certas bactérias intestinais conseguem perceber o que o hospedeiro está a comer e traduzir essa informação em sinais que dizem às células de gordura para gastarem energia”, afirmou Honda.
Quando os investigadores bloquearam qualquer uma das duas vias, a transformação parou, indicando que nenhum dos sinais, por si só, era suficiente para fazer todo o trabalho.
Micróbios-chave identificados
Depois de testarem muitas combinações, a equipa encontrou quatro estirpes de origem humana que, em conjunto, eram necessárias para obter a resposta mais forte.
Num grupo de 25 voluntários saudáveis, cerca de 40% apresentavam gordura bege activa - um tipo de gordura que queima energia.
Transplantes provenientes dos melhores dadores conseguiram transmitir esse efeito a ratos, enquanto micróbios de dadores com resposta mais fraca provocaram poucas alterações visíveis nos mesmos animais.
Sempre que se retirava uma das quatro estirpes, a resposta quebrava, mostrando que o fenómeno dependia de uma equipa microbiana muito pequena.
Porque é que o fígado entrou em cena
A falta de proteína não ficou confinada ao intestino: a amónia produzida pelas bactérias seguiu pela veia porta, o vaso que liga intestino e fígado.
No fígado, essa amónia levou as células hepáticas a produzir mais FGF21, mesmo enquanto decorriam em paralelo outras alterações associadas aos ácidos biliares.
Quando os investigadores eliminaram, nas bactérias, uma enzima que fabrica amónia, a resposta do fígado enfraqueceu e o programa de “begeificação” da gordura ficou bloqueado.
Organoides de fígado humano - pequenos fragmentos de tecido hepático cultivados em laboratório - reagiram da mesma forma, sugerindo que este mecanismo de retransmissão pode ser relevante para além dos ratos.
A gordura podia transformar-se
Nos ratos, a nova gordura bege surgiu no espaço de duas semanas e continuou a aumentar durante mais algum tempo. Mantendo a mesma dieta, a gordura activou os mesmos genes de produção de calor que aparecem após exposição ao frio.
Quando os animais regressaram a uma alimentação normal, grande parte dessa capacidade de queimar calorias diminuiu, o que indica que a mudança era reversível.
Ainda assim, idade, sexo e localização da gordura continuaram a influenciar o resultado, pelo que a resposta foi intensa mas não se distribuiu de forma uniforme por todo o corpo.
Os nervos fecharam o circuito
Os sinais dos ácidos biliares e os sinais vindos do fígado voltaram a encontrar-se no tecido adiposo, onde ajudaram a formar nervos simpáticos mais densos - as fibras que impulsionam o gasto de calorias.
Na ausência desses sinais, a rede nervosa tornava-se mais rarefeita e a resposta de escurecimento para bege parecia globalmente muito mais fraca.
Quando os ratos receberam um fármaco que activava directamente essa via nervosa, a begeificação em falta regressou em grande medida.
Esse “resgate” mostrou que os micróbios não estavam a substituir a cablagem do próprio corpo; estavam a alterar a intensidade com que ela disparava.
Os benefícios pareceram reais
Os ratos submetidos ao plano com pouca proteína aumentaram menos de peso, acumularam menos gordura e lidaram melhor com a glicose do que os controlos.
Com a adição dos micróbios essenciais, o colesterol, os triglicéridos e um marcador de lesão hepática desceram ainda mais.
O volume corporal magro e a massa muscular mantiveram-se, na maioria, preservados, o que vai contra a ideia de que se tratava apenas de desnutrição.
Estes ganhos tornam a biologia digna de acompanhamento, mas não demonstram que a gordura bege, por si só, explique todos os benefícios observados.
Limites no uso em humanos
A dieta utilizada nestas experiências fornecia apenas 7% das calorias sob a forma de proteína, cerca de 60% abaixo da dieta de controlo.
Tentativas anteriores de melhorar o metabolismo com probióticos - micróbios vivos vendidos como suplementos - têm, na maioria, desapontado as pessoas.
“O tecido adiposo não é fixo; é surpreendentemente adaptável”, disse Honda, ao explicar porque é que este tecido ainda pode ser reeducado na idade adulta.
Esta prudência é necessária porque, na vida real, os corpos, as dietas e o microbioma - a comunidade microbiana completa do intestino - variam muito mais.
Soluções baseadas em fármacos
Em vez de encarar a alimentação pobre em proteína como solução, os investigadores apontaram para medicamentos que imitem os sinais produzidos pelos micróbios.
Os alvos situam-se numa via que liga bactérias intestinais, hormonas do fígado, células adiposas imaturas e crescimento nervoso.
Como a obesidade aumenta o risco de diabetes, doença cardiovascular e muitos cancros, ferramentas metabólicas melhores poderiam ter impacto amplo.
A perspectiva ainda é inicial, mas o estudo transforma uma questão alimentar pouco clara num conjunto definido de alvos.
O que isto muda
Aqui, as bactérias intestinais não se limitaram a acompanhar a resposta à dieta; ajudaram a decidir se a energia armazenada ficava “trancada” ou se era gasta.
Ao mostrar como essa decisão percorreu intestino, fígado, gordura e nervos, o trabalho aponta para terapias testáveis, em vez de depender de tentativa e erro alimentar.
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