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Faixas bus recuam na Área Metropolitana do Porto, apesar do crescimento da rede da STCP para 24,6 km

Autocarro branco e azul numa paragem STCP ao lado de via exclusiva para autocarros numa cidade.

Vias dedicadas aos autocarros encolheram nos últimos anos, mesmo quando a rede da STCP ganhou quilómetros. O contraste deixa claro que crescer “no mapa” não é o mesmo que dar prioridade real ao transporte público.

Nos seis concelhos da Área Metropolitana do Porto servidos pela STCP, as faixas bus estão praticamente estagnadas. E os poucos progressos registados acabaram por ser anulados por recuos ao longo dos últimos cinco anos.

Os 24,6 quilómetros (km) de faixas bus identificados no final de 2025, segundo o Relatório e Contas da STCP, significam menos quase dois mil metros face ao máximo de 26,3 km em 2021. A quebra torna-se ainda mais expressiva se tivermos em conta que, no mesmo período, a rede total aumentou nove quilómetros, de 494 para 503 km.

“Esta desproporção mostra bem que há muito para fazer”, diz Vítor Oliveira, investigador principal do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). “Os corredores bus são a expressão mais clara da aposta no transporte público.”

Para a Sociedade de Transportes Coletivos do Porto (STCP), a “expansão dos corredores bus continua a ser uma das medidas mais eficazes para aumentar a velocidade comercial, a regularidade e a fiabilidade”. Ainda assim, nos últimos anos, esse avanço tem “sido mais lento do que seria desejável para responder ao crescimento da procura e aos desafios da mobilidade urbana”.

Paula Teles, mestre em Planeamento e Projeto do Ambiente Urbano, considera que, “no caso do Porto, não tem havido coragem política” para apostar no transporte público rodoviário. “A STCP é muito útil à grande cidade do Porto, que é este núcleo urbano, que passa da fronteira do Porto. Mas o chão pertence à tutela das autarquias que não têm entrado nesse alinhamento”, acrescenta.

Paula Teles reconhece, no entanto, que o atual presidente da Câmara do Porto “tem dado sinais de que vai mudar”. Pedro Duarte anunciou, há três meses, que vai acrescentar quatro quilómetros de vias bus. “Pensando na escala do Porto, parece pouco, mas é muito bem-vindo. Importa perceber como são esses quilómetros. Estas coisas têm que ter alguma continuidade, que depende da possibilidade física de fazer o corredor de bus e da vontade política”, diz Vítor Oliveira.

“Não adianta fazer cinco metros aqui e dez ali”, sublinha Paula Teles. “A cidade tem de ter um pensamento estruturado”, reforça. “As questões-chave são sempre a integração e a continuidade”, complementa Vítor Oliveira, autor do livro “On New York”s ground: dense, diverse and sustainable”, que explora como a organização do chão condiciona a vida urbana.

Dos 24,6 quilómetros de corredores bus nos seis municípios servidos pela STCP, 15 km ficam no Porto. Segundo dados da autarquia, em maio, os quatro quilómetros anunciados representavam um acréscimo de 27% face aos atuais. Apesar da insistência do JN desde março, não foram disponibilizados dados sobre as zonas onde vão crescer vias dedicadas, nem sequer as consideradas prioritárias.

Constituição e Boavista

Vítor Oliveira defende que a expansão das faixas bus deve começar por “identificar eixos que têm um papel mais estruturante”. E sublinha que “o mais importante é não planear os transportes separados da forma urbana”. Nesse sentido, aponta duas artérias fundamentais no Porto: a Avenida da Boavista, que já tem via dedicada, e a Rua da Constituição, que poderia ser “uma aposta estratégica”.

No caso da Boavista, Paula Teles considera “impensável ter um BRT que chega à rotunda e anda no meio do trânsito”, admitindo que esta solução, para o metrobus, podia também ser aplicada à STCP. “E derivar daí para o Campo Alegre, para as zonas que vão para Montes Burgos e com maior diferenciação em todo o eixo da Rua da Constituição que vai ter ao Marquês”, uma das principais estações de metro da cidade, com ligação a vários autocarros.

“Do ponto de vista técnico e com a experiência que temos, as estações de metro devem estar agrafadas a corredores de bus, de forma mais extensiva possível, criando rede”, defende Paula Teles. “Essa ramificação é absolutamente determinante”, acrescenta a especialista, que lançou no início deste mês o livro “A cidade das (i)mobilidades - Manual técnico de acessibilidade e mobilidade para todos”.

“Quando o transporte público beneficia de prioridade efetiva na via pública, ganham os passageiros, a eficiência operacional da STCP e a cidade, através da redução do congestionamento, das emissões e da dependência do transporte individual”, defende a STCP, que considera “positivo verificar” que o novo executivo do Porto “demonstra uma clara aposta no reforço da prioridade ao transporte público.”

Transportes grátis não vão trazer revolução

A Câmara do Porto anunciou a intenção de ter transportes públicos gratuitos na cidade até ao fim do ano. Sem esperar que a medida provoque uma revolução na mobilidade, Vítor Oliveira acredita que ainda assim mais pessoas vão aderir.

“O dinheiro é das coisas que mais contam para mudar”, observa. Paula Teles entende que a gratuitidade vai “ter um impacto real”, mas lembra que ser de borla, por si só, não resolve. “Se a pessoa não tiver resposta em tempo útil para chegar ao destino, não vai abdicar do carro, porque o carro é rápido e responde”, alerta a especialista.

“A pessoa planeia a viagem e tem de saber que vai ser competitivo do ponto de vista do tempo. É o que pesa mais, por incrível que pareça, mais do que a parte financeira”, acrescenta. Vítor Oliveira vê a gratuitidade “com bons olhos”, mas antecipa argumentos em contrário por parte de concelhos vizinhos que não vão avançar nesse sentido.

Paula Teles considera “óbvio” que a Invicta “tem que conectar com os outros municípios da volta, principalmente no encontro das grandes rótulas urbanas das grandes centralidades”. E isso “exige diplomacia política, porque a técnica não chega lá sozinha”.

Saber mais

Seis concelhos e 43 freguesias
A STCP opera em 43 freguesias de seis concelhos, onde vivem 1,1 milhões de habitantes: Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Valongo e Vila Nova de Gaia.

Transporte ainda abaixo da pandemia
O total de passageiros transportados em 2025 foi de 71 milhões, em linha com 2024. Ambos abaixo de 2023, o melhor ano pós-pandemia, com 75 milhões de clientes, acima dos 49 milhões de 2020.

Rede de 503 quilómetros
É o total da extensão da rede da STCP, que serve 2517 paragens na Área Metropolitana do Porto.

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