A China está a colecionar recordes verdes enquanto a Europa fica para trás - e a uma velocidade bem maior do que muitos defensores da transição energética gostariam.
Quando se pergunta, em conversas sobre energias renováveis, quem lidera, surgem quase sempre os mesmos nomes: Noruega, Suécia, Islândia. Só que, na prática, o centro de gravidade já mudou há muito. Há um país que domina as estatísticas da eólica, do solar e afins de forma tão clara que a Europa passou a correr atrás: a China. E esta viragem está a mexer de forma profunda com o equilíbrio de forças no mercado energético global.
China torna-se uma superpotência do eletricidade verde
O essencial é simples: há anos que a China aposta de forma agressiva em energia eólica e solar e, com isso, subiu ao topo dos rankings mundiais. A quota das renováveis na produção de eletricidade cresce a ritmo acelerado - não apenas em projetos emblemáticos, mas em todo o território.
Enquanto a Europa se perde em rondas de negociação e processos de decisão prolongados, Pequim pode, em última instância, alinhar prioridades através de um plano quinquenal. Os números refletem essa capacidade de execução: a China já gera mais eletricidade a partir de fontes renováveis do que toda a Europa em conjunto. A energia eólica e a fotovoltaica são, em particular, os motores deste avanço.
“A China representa entretanto cerca de dois terços das novas capacidades eólicas a nível mundial e, na energia solar, joga também numa liga à parte.”
As grandes regiões desérticas do norte e do oeste do país estão a transformar-se em enormes parques solares e eólicos. Em várias províncias, o acréscimo de necessidades de eletricidade é quase todo coberto por novas instalações verdes. Ao mesmo tempo, a China moderniza a rede elétrica para gerir melhor a variabilidade da produção de sol e vento.
Como a eólica e a solar estão a mudar o mix energético
Nem todas as energias renováveis contribuem da mesma forma. O crescimento recente é puxado sobretudo por três áreas:
- Energia eólica em terra e no mar: hoje, milhões de pessoas vivem em zonas onde o parque eólico “ali ao lado” já entrega mais eletricidade do que uma central a carvão tradicional.
- Energia solar: telhados, centrais em solo e “desertos solares” gigantescos fazem do país o maior mercado solar do mundo.
- Hidroelétrica: as grandes barragens continuam a fornecer uma base relativamente estável e fiável.
É na eólica que o fosso fica mais evidente: cerca de dois terços da nova potência eólica mundial é instalada em território chinês. Enquanto a Europa ainda debate regras de distanciamento, prazos de licenciamento e processos judiciais, por lá as turbinas já estão a rodar.
A Europa passa de pioneira a seguidora
Durante anos, a Europa foi vista como referência na transição energética. A Alemanha incentivou cedo o solar em telhados, a Escandinávia apoiou-se na hidroeletricidade, a Dinamarca tornou-se especialista em eólica. Hoje, essa imagem soa cada vez mais a nostalgia.
Em muitos países da UE, o ritmo de novas instalações estagna ou fica muito aquém do que os próprios objetivos climáticos exigem. Energia cara, autorizações demoradas e incerteza política atrasam projetos. E a concorrência aperta: turbinas, painéis solares e baterias chegam cada vez mais a partir da Ásia.
“A Europa discute, a China instala - é esta dinâmica que está a marcar o mercado global das energias renováveis.”
Isto não significa que a Europa se tenha tornado irrelevante. Países como Noruega, Suécia ou Áustria continuam a apresentar quotas muito elevadas de renováveis no mix elétrico, sobretudo graças à hidroeletricidade. Mas quando a comparação é feita em volume absoluto de expansão - isto é, quem cria mais capacidade - os países europeus ficam atrás da China e também atrás dos EUA.
EUA e Europa: os outros pesos pesados no pódio
Depois da China, surgem dois protagonistas conhecidos: os EUA e a Europa. Ambos canalizam milhares de milhões para infraestrutura verde, mas seguem caminhos bem distintos.
| Região | Papel no mercado das renováveis | Particularidades |
|---|---|---|
| China | Maior produtor e maior expansão | Megaprojetos orientados pelo Estado, ecossistema industrial forte |
| EUA | Segundo maior mercado | Grande peso de estados individuais, subsídios massivos através de novas leis climáticas |
| Europa | Terceiro maior mercado | Metas climáticas ambiciosas, mas política fragmentada e procedimentos lentos |
Nos EUA, a estratégia atual passa por incentivos financeiros claros. Com programas de apoio abrangentes para indústria verde e energia limpa, Washington procura atrair empresas para o país. Parques solares e eólicos avançam sobretudo em estados com grande disponibilidade de terreno e muito sol ou vento, como o Texas ou a Califórnia.
Já a Europa apoia-se fortemente em regulação e em metas de longo prazo. No papel, isso dá previsibilidade; na prática, muitas vezes falha por causa de processos que se arrastam durante anos. Projetos de novos parques eólicos acabam em tribunal e centrais solares esbarram em resistências locais.
Porque é que a China conseguiu avançar tão depressa
Muita gente pergunta: como pode um país com um consumo de carvão gigantesco ser, ao mesmo tempo, líder em energias renováveis? A explicação está na dimensão da economia e numa política industrial consistente.
Vários elementos somam-se:
- Economias de escala: a China fabrica painéis solares e turbinas eólicas em produção de massa, reduzindo preços - em todo o mundo.
- Orientação estatal: as províncias recebem metas sobre quanta capacidade renovável devem ligar à rede e até quando.
- Estratégia industrial: as renováveis são tratadas como tecnologia do futuro, com a qual o país quer conquistar mercados de exportação.
- Problemas locais de qualidade do ar: as renováveis aliviam metrópoles afetadas por smog, aumentando a pressão política.
O resultado é que, embora as centrais a carvão continuem muito presentes, surgem em paralelo volumes enormes de nova energia verde. A imagem simplista de “país do carvão contra país ecológico” não explica esta realidade.
Consequências para a Europa e para o rumo climático global
O facto de a China estabelecer tantos recordes verdes tem um efeito duplo. Por um lado, melhora o balanço climático mundial, porque as centrais convencionais vão sendo, aos poucos, substituídas. Por outro, cria dependências: quem compra painéis solares, baterias ou componentes para aerogeradores acaba, muitas vezes, por recorrer a fornecedores chineses.
A Europa responde com programas de subsídios, requisitos de sustentabilidade mais exigentes e tentativas de recuperar capacidade produtiva própria. Se isso será suficiente, ainda está em aberto. O mercado já é global, as cadeias de produção estão consolidadas e a diferença de preços em muitos componentes continua muito significativa.
O que significa, na prática, “energias renováveis”
Muitas vezes fala-se de energias renováveis como se fossem um bloco único. Na realidade, as tecnologias diferem bastante.
- Solar térmico: aproveita o calor do sol, por exemplo para aquecimento de águas.
- Fotovoltaico: converte luz em eletricidade, desde sistemas em telhados até mega-parques.
- Hidroeletricidade: fornece eletricidade de forma relativamente constante, mas depende de rios e barragens.
- Energia eólica: gera eletricidade a partir das correntes de ar, em terra ou no mar.
- Geotermia: capta o calor do interior da Terra, sobretudo para aquecimento e, em alguns casos, para eletricidade.
Na China, o foco recai nitidamente na eólica e no fotovoltaico, enquanto a Europa tem uma tradição forte na hidroeletricidade e, mais recentemente, está a intensificar a construção de parques eólicos no mar.
Riscos e oportunidades na corrida ecológica global
A corrida aos recordes verdes também tem custos. Em algumas regiões, parques eólicos e solares avançam sem avaliação suficiente de impactos na natureza, nas populações ou nos recursos hídricos. As redes elétricas chegam ao limite porque não crescem com a mesma rapidez. E a gestão de fim de vida de equipamentos antigos começa a ganhar peso.
Ao mesmo tempo, o boom abre portas: empregos na indústria, menor dependência de importações fósseis, redes mais modernas e mais inovação tecnológica. Quem investe cedo e em força garante não só eletricidade mais amiga do clima, como também vantagens de exportação.
Para a Europa, fica uma pergunta incómoda: o continente quer voltar a liderar a expansão das energias renováveis ou aceita viver com uma política climática cada vez mais dependente da capacidade produtiva de outras regiões? A China já respondeu - com uma sequência inteira de recordes verdes.
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