Há motivos para preocupação: 16,3% dos empregos em França poderão estar ameaçados dentro de dois a cinco anos devido à inteligência artificial (IA). Em termos absolutos, isto equivale a quase 5 milhões de trabalhadores.
Desde que o ChatGPT surgiu, em 2022, o emprego tornou-se, sem dúvida, o tema mais incandescente ligado à IA. As previsões multiplicam-se: há quem antecipe uma crise inédita e quem defenda que a tecnologia se limitará a automatizar tarefas demoradas, libertando tempo para que as pessoas se concentrem no essencial.
Um estudo conduzido pela seguradora Coface e pelo Observatório dos Empregos Ameaçados e Emergentes (OEM), com publicação prevista para 1 de Abril mas divulgado pelo Le Monde, ajuda a clarificar o debate graças a uma metodologia considerada inovadora.
Adoção da IA generativa nas empresas francesas: impacto ainda gradual
Por agora, o efeito da IA em França mantém-se relativamente contido e avança de forma progressiva. A maioria das empresas está ainda numa fase dominada por chatbots e por testes controlados; poucas se aventuram a eliminar postos de trabalho ou a reformular processos de ponta a ponta.
Em 2025, apenas 7% dos trabalhadores franceses recorriam à IA generativa todos os dias no contexto profissional, e 14% utilizavam-na semanalmente.
Ainda assim, a trajectória pode acelerar nos próximos anos com a expansão da IA agêntica, capaz de executar numerosas tarefas de forma totalmente autónoma.
Colarinhos brancos e jovens na linha da frente
De acordo com o estudo, 3,8% dos empregos franceses já se encontram hoje fragilizados pela IA generativa. Porém, essa percentagem deverá subir para 16,3% num horizonte de dois a cinco anos - o equivalente a um emprego em cada seis. Em paralelo, 1 emprego em 8 poderá ter mais de 30% das suas tarefas passíveis de automatização.
Tal como outras análises têm indicado, as ocupações mais expostas tendem a ser as de colarinhos brancos, normalmente também as mais bem remuneradas. A razão é que a IA incide sobretudo sobre tarefas cognitivas e intelectuais, ao passo que anteriores revoluções tecnológicas afectaram mais os empregos intermédios e repetitivos.
Sectores mais expostos à IA
Entre as áreas com maior risco surgem: arquitectura, engenharia, informática e matemática, bem como apoio administrativo e trabalho de escritório. Também os trabalhos criativos - que incluem design, media, artes e espectáculo - e o sector jurídico figuram entre os mais ameaçados.
Outra faixa particularmente vulnerável é a dos jovens. Quando algumas empresas congelam contratações para automatizar tarefas, estagiários e alunos em regime de alternância ficam na primeira linha.
O Estado é chamado a intervir
Do lado do Governo, estão a ser mobilizados recursos considerados limitados, como a iniciativa Osez l’IA, que pretende formar 15 milhões de profissionais até 2030. Para Axelle Arquié, economista e cofundadora do OEM, isso está longe de chegar. “É preciso começar a preocupar-nos. E seria bom que os responsáveis políticos também pensassem nisso, e que não fossem apenas as pessoas a preocupar-se”, defendeu, em declarações à RMC.
Há, contudo, leituras mais prudentes. “Os discursos alarmistas são sustentados, em primeiro lugar, pelos promotores destas tecnologias que, tendo em conta o nível de investimento, precisam de manter viva a ideia de que isto será rentável a curto prazo e, portanto, de que haverá um grande impacto”, afirma Grégory Verdugo, professor de Ciências Económicas na Cergy-Paris Université e investigador associado ao Observatório Francês das Conjunturas Económicas, citado pelo Le Monde.
Vale ainda a pena recordar que cada grande vaga tecnológica - robotização, Internet, plataformas - gerou previsões catastróficas que nem sempre se concretizaram, ou não aconteceram da forma antecipada.
Mesmo assim, já existem sinais visíveis: várias profissões vêem a sua actividade profundamente alterada pela disseminação destas ferramentas, como acontece, por exemplo, com designers gráficos ou tradutores.
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