A ciência está um passo mais perto de decifrar o código da longevidade graças a um novo estudo que identificou dezenas de proteínas associadas a um envelhecimento mais lento no sangue de centenários.
Como foi feito o estudo com centenários
Uma equipa de cientistas na Suíça recolheu e comparou amostras de sangue de três grupos: adultos jovens saudáveis entre os 30 e os 60 anos, octogenários hospitalizados entre os 80 e os 90, e centenários com 100 anos ou mais. O objectivo foi perceber de que forma a expressão de proteínas no plasma se altera ao longo do tempo e como isso influencia o metabolismo, o sistema imunitário e, no conjunto, a duração de vida.
No total, foram quantificadas mais de 700 proteínas. Entre elas, 37 compuseram um perfil que estava "mais próximo do grupo mais jovem do que do dos octogenários", explica Flavien Delhaes, fisiologista celular da Universidade de Genebra e primeiro autor do estudo.
"Isto representa aproximadamente 5 por cento das proteínas medidas, sugerindo que os centenários não escapam totalmente ao envelhecimento, mas que certos mecanismos-chave são significativamente abrandados."
O perfil de 37 proteínas: imunidade, metabolismo e matriz extracelular
Muitas das proteínas que integram este perfil têm impacto directo na regulação da imunidade e do metabolismo. Algumas são essenciais para reciclar glóbulos vermelhos e para eliminar proteínas disfuncionais - incluindo as que estão associadas a doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.
Outras proteínas actuam ao desencadear a apoptose, um processo de morte celular programada que ajuda a travar a formação de tumores. Entre as proteínas identificadas, há ainda as que se relacionam com um metabolismo mais favorável das gorduras e com a libertação de insulina, contribuindo para a protecção contra perturbações metabólicas.
As proteínas também ajudam a manter a estrutura do corpo ao sustentarem a matriz extracelular: uma rede gelatinosa de minerais, colagénios e outras substâncias que funciona como o “cimento” do organismo e onde as células ficam embebidas. Nos centenários, estas proteínas parecem estar mais abundantes.
Stress oxidativo, GLP-1 e pistas para envelhecer com saúde
Apesar de o perfil global ser amplo, os resultados mais nítidos do estudo centraram-se em cinco proteínas associadas ao stress oxidativo - um fenómeno muitas vezes gerado por respostas imunitárias excessivas do próprio organismo e que acelera o envelhecimento.
Tal como na história dos três ursos, em que tudo tem de estar na temperatura certa, também no corpo muitos processos precisam de estar “no ponto” para funcionarem da melhor forma. Por exemplo, os glóbulos brancos produzem radicais livres para destruir agentes patogénicos e evitar infecções. No entanto, quando a produção de radicais livres sai de controlo, pode surgir inflamação e dano tecidular, com possível contribuição para doenças autoimunes, cancro e doenças neurodegenerativas.
De forma semelhante, as mitocôndrias geram a energia que nos mantém vivos. Mas, quando funcionam mal, também podem produzir radicais livres em excesso - numa analogia dos investigadores, como carros mal mantidos que libertam uma névoa tóxica.
Assim, se os centenários parecem estar particularmente protegidos do stress oxidativo, isso significará que têm níveis mais elevados de proteínas antioxidantes?
Num resultado à primeira vista contraintuitivo, os centenários deste estudo produziram menos proteínas antioxidantes do que a população geriátrica padrão, o que provavelmente reflecte níveis mais baixos de stress oxidativo. Ou seja, precisariam menos de fabricar proteínas antioxidantes - num tipo de dilema do ovo e da galinha.
Na mesma linha, verificou-se que os centenários preservavam uma proteína responsável por degradar o GLP-1, a hormona que desencadeia a libertação de insulina e que está na base de medicamentos com semaglutida.
"Este é também um mecanismo contraintuitivo, sugerindo que os centenários mantêm um bom equilíbrio da glicose sem necessitarem de produzir grandes quantidades de insulina", explica Delhaes.
No conjunto, estes resultados apontam para a possibilidade de os centenários beneficiarem de uma saúde metabólica optimizada - em vez de dependerem de uma hiperactividade das proteínas necessárias para controlar um metabolismo desregulado.
Além disso, os dados obtidos dão suporte à teoria do inflama-envelhecimento, que propõe que o envelhecimento desregula o sistema imunitário, levando a um estado persistente de inflamação.
Em termos práticos, os investigadores sublinham que envelhecer com saúde pode passar por acções concretas:
"Uma vez que a componente genética da longevidade representa apenas cerca de 25 por cento, o estilo de vida na idade adulta é uma alavanca poderosa: alimentação, actividade física e ligações sociais", afirmam os autores.
Assim, comer fruta pode ajudar a reduzir radicais livres no sangue, fazer exercício pode revitalizar a matriz extracelular e socializar pode manter o cérebro activo.
Porque, mesmo que predisposições genéticas e diferenças individuais possam dificultar os esforços contra o envelhecimento, o segredo (mais aplicável) da longevidade poderá estar no autocuidado.
Esta investigação foi publicada na Aging Cell.
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