Uma equipa de cientistas anunciou na terça-feira que desenvolveu novos landers de grande profundidade, concebidos especificamente para testar a sua polémica descoberta de que rochas metálicas no fundo do oceano estão a produzir “oxigénio escuro”.
Se afinal sempre existiu, nas profundezas da Terra, uma fonte de oxigénio até agora desconhecida, isso seria uma revelação notável - capaz de pôr em causa pressupostos antigos sobre a origem da vida no nosso planeta.
Ainda assim, o sector da mineração em mar profundo - interessado em extrair metais valiosos a partir de nódulos polimetálicos do tamanho de batatas - e alguns investigadores têm manifestado reservas quanto a esta alegação.
Novos landers para investigar o oxigénio escuro
Andrew Sweetman, ecólogo marinho britânico que liderou o estudo de 2024 onde foi apontada a possível existência de oxigénio escuro, prepara agora uma nova expedição subaquática para os próximos meses.
Numa conferência de imprensa na terça-feira, Sweetman e a sua equipa deram a conhecer dois novos landers capazes de descer até 11 quilómetros (7 milhas) de profundidade, com o objectivo de perceber de que forma os nódulos poderiam estar a gerar oxigénio.
Ao contrário de missões anteriores, estes landers vão incluir sensores desenhados especificamente para “medir a respiração do fundo do mar”, explicou Sweetman.
De acordo com um comunicado, o equipamento consegue suportar uma pressão 1,200 vezes superior à existente à superfície da Terra e, em termos de aspecto e robustez, faz lembrar instrumentos de exploração espacial.
Os landers serão lançados a partir de um navio de investigação na Zona Clarion-Clipperton, uma região imensa situada entre o Havai e o México.
As empresas mineiras pretendem iniciar a recolha destes nódulos, que contêm metais valiosos utilizados em baterias de carros eléctricos e noutras tecnologias.
Os cientistas defendem que os nódulos libertam carga eléctrica suficiente para separar a água do mar em hidrogénio e oxigénio - um processo conhecido como electrólise.
Corrida ao ouro subaquática?
Sweetman aproveitou também a conferência de imprensa para responder às críticas dirigidas ao seu estudo de 2024.
Alguns investigadores sugeriram que o oxigénio detectado não teria origem nos nódulos e que, na realidade, seria apenas resultado de bolhas de ar retidas nos instrumentos de medição.
“Temos usado estes instrumentos nos últimos 20 anos e, sempre que os colocámos em operação, nunca tivemos bolhas”, afirmou Sweetman, acrescentando que a equipa realizou testes para excluir essa hipótese.
Esta discussão surge num momento em que empresas e países disputam propostas de regras para regular uma indústria de mineração em mar profundo recente e potencialmente destrutiva para o ambiente.
O estudo de 2024 de Sweetman foi parcialmente financiado por uma empresa canadiana de mineração em mar profundo, a The Metals Company, que desde então tem criticado de forma dura a investigação.
“Se a mineração comercial avançar, então haverá impactos bastante generalizados”, disse Sweetman, acrescentando que “estes nódulos são o lar de uma variedade de fauna diversa”.
Ainda assim, o cientista sublinhou que “não é nossa intenção” encontrar algo que impeça a mineração em mar profundo.
O que pretende, segundo explicou, é recolher o máximo de informação possível para “minimizar os impactos tanto quanto possível”, caso a mineração venha efectivamente a avançar.
Matthias Haeckel, biogeoquímico do Centro GEOMAR Helmholtz para a Investigação Oceânica, na Alemanha, disse à AFP que o seu próprio trabalho “não mostra qualquer indício de produção de oxigénio” por parte dos nódulos.
No entanto, referiu que Sweetman vai “juntar-se ao nosso cruzeiro no final deste ano, quando planeamos comparar os nossos métodos”.
Calendário da próxima campanha
No âmbito desta nova investigação, financiada pela Fundação Nippon, do Japão, Sweetman e a sua equipa planeiam passar o mês de Maio a bordo de um navio de investigação na Zona Clarion-Clipperton.
“Vamos conseguir confirmar a produção de oxigénio escuro dentro de 24 a 48 horas após os landers regressarem à superfície”, disse.
Segundo Sweetman, é provável que o mundo só conheça os resultados quando o navio voltar em Junho - e experiências adicionais em terra firme poderão demorar meses, acrescentou.
© Agence France-Presse
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