Saltar para o conteúdo

José Gil: o medo no Princípio da Inquietação no Espanto, Cascais 2025

Homem dá palestra sobre neurociência para grupo de pessoas numa sala com projeção ao fundo.

O medo tem uma função de defesa, mas pode igualmente reduzir-nos ao ponto de nos destruir. Para José Gil, um dos filósofos portugueses mais marcantes do nosso tempo, “o medo retira ao sujeito a sua capacidade de agir”.

José Gil no Princípio da Inquietação e no Espanto (Cascais, 2025)

Neste segundo episódio do Princípio da Inquietação, damos a conhecer a intervenção do filósofo na edição inaugural do Espanto - Festival Internacional de Filosofia, realizada em Cascais, em 2025. Ao longo da sessão, Gil traça um retrato do medo tal como hoje se manifesta, convocando riscos associados às alterações climáticas, ao avanço da extrema-direita, à inteligência artificial e a outros elementos do presente.

Ameaças contemporâneas e o medo: clima, extrema-direita e inteligência artificial

Entre os territórios emergentes do poder e do receio, José Gil destaca o impacto da tecnologia quando apropriada por regimes autoritários. Nas suas palavras, trata-se da “utilização da inteligência artificial por regimes autocráticos, criando reservas enormes de informações sobre as quais controlarão populações inteiras”.

Durante cerca de meia-hora, o filósofo descreve diferentes modalidades do medo e as suas funções sociais, procurando dar nome a um sentimento que parece infiltrar-se nas subjetividades contemporâneas e, em simultâneo, moldá-las. Nesse percurso, evoca também memórias do passado recente: o medo vivido na ditadura salazarista, o medo político e certos mecanismos repressivos do regime de Salazar.

“O medo serve a morte, quando é, por exemplo, utilizado por poderes políticos autoritários e totalitários como meio decisivo para esmagar a vontade dos cidadãos, ou quando individual ou coletivamente desliza para o pânico e a autodestruição, ou ainda quando faz nascer a solidão auto-infligida, o desejo de vingança ou de suicídio.”

“O medo retira ao sujeito a capacidade de agir, exceto para fugir, o que é uma maneira de evitar enfrentar. Quando intenso, paralisa e arranca o indivíduo ao seu território, desprendendo-o do solo, retira-lhe as referências espaciais, pode mesmo asfixiá-lo. Deste modo, isola-o da comunidade e do outro, deixando-o à mercê do perigo.”

“A morte da humanidade não faz sentido na vida concreta de cada um. Mas, porque ninguém se sente ameaçado pela morte da humanidade, o seu anúncio, cotidianamente difundido pelos media, contribui para afastar dos indivíduos a sua morte real. No entanto, paradoxalmente, esta ideia invivível deixa também um rastro nos espíritos, uma apreensão, um medo vago de qualquer coisa que nos ameaça sem que saibamos bem porquê. Este mal-estar indefinido, no entanto, vem de um facto preciso. A morte da humanidade aponta para a total ausência de sobrevivência. Ninguém estará lá para testemunhar. É uma morte sem redenção, sem imortalidade possível, sem figura espetral, como a de um esqueleto ou uma ceifeira para a representar. É a morte nada, impensável e, por isso, potencialmente aterradora.”

Percurso e obra de José Gil

José Gil nasceu em Moçambique e estudou Filosofia em Paris, onde concluiu um doutoramento de Estado com uma tese intitulada O corpo como campo do poder. Em 1982 regressou a Portugal e passou a lecionar Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Em paralelo, deu aulas no Colégio Internacional de Filosofia de Paris, na Nova Escola para o Desenvolvimento da Dança, em Amesterdão, e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Orientou ainda vários seminários em Porto Alegre, Fortaleza (Brasil) e Medellín (Colômbia), dedicados à Estética e a Fernando Pessoa.

Ao longo da sua carreira, publicou artigos e ensaios científicos em revistas e enciclopédias internacionais, bem como romances e numerosos ensaios - alguns deles vertidos para francês, espanhol, inglês e italiano. Entre os títulos mais relevantes, contam-se: Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações; Salazar - a retórica da invisibilidade; A imagem-nua e as pequenas perceções; Movimento total; Portugal, hoje - o medo de existir; O impercetível devir da imanência - sobre a filosofia de Deleuze; A arte como linguagem; O humor e a lógica dos objetos de Duchamp (em colaboração com Ana Godinho); Caos e ritmo; e Morte e democracia.

Foi também o primeiro filósofo distinguido com uma homenagem pelo Espanto - Festival Internacional de Filosofia.

Onde ouvir e como é feito o podcast O Princípio da Inquietação

Pode ouvir o novo podcast do Expresso aqui ou em qualquer aplicação de podcasts - onde é possível subscrever, deixar comentários e enviar sugestões.

O Princípio da Inquietação é um podcast em que pensar se assume como verbo praticado a sós e em diálogo. Filósofos portugueses e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de diferentes áreas para conversas sem rede. Aqui, as certezas são postas em causa e a dúvida é tratada como virtude. A ambição passa por exercitar a arte de pensar - mesmo quando isso não desemboca em respostas, mas em novas perguntas.

Todas as quintas-feiras, um novo episódio, uma nova inquietação.

A edição de áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora construída a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís da obra Inquietação, de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é assinada por Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logótipo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário