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Gangkhar Puensum: o cume não escalado do mundo com 7 570 metros

Viajante de mochila com bastões observa montanha nevada ao amanhecer junto a bandeiras coloridas de oração.

Não é como o uivo assobiado que se ouve nos Alpes; aproxima-se mais de um murmúrio grave, algures entre uma oração e um aviso. Lá em baixo, no vale, arde uma pilha de zimbro, e o fumo arrasta-se devagar na direcção de um colosso branco que rasga a linha do horizonte. Gangkhar Puensum. 7 570 metros de altura. Imaculado, intocado, quase indecentemente silencioso. Um monge idoso fixa o cume e junta as mãos, como quem conversa com um velho amigo. Ao lado, um jovem guia de trekking desliza o dedo no telemóvel por fotografias do acampamento-base do Evereste: barulho, cor, autorretratos. Depois volta a erguer os olhos para aquele gigante branco que nunca conheceu uma investida final até ao topo. Ainda não.

O cume mais alto não escalado do mundo - e este silêncio estranho

Quando se pensa em montanhas muito altas, surgem imagens quase automáticas: filas de casacos de penas, tendas multicoloridas, garrafas de oxigénio e fotografias de triunfo junto a uma cruz no cume. No Gangkhar Puensum, nada disso existe. Não há cruz, não há pegadas, não há placas metálicas com nomes. Há apenas branco. E silêncio. E uma forma particular de respeito que se torna quase física quando se percebe a história por trás deste maciço.

O curioso é que o pico só entrou em mapas em 1922 e, durante muito tempo, ninguém tinha grande certeza da sua altitude. Mesmo hoje, há cartas que discordam por centenas de metros. Um cume que não se deixa medir com exactidão - detalhe que encaixa de forma quase inquietante na reputação que ganhou.

A verdade, fria e simples, é esta: do ponto de vista puramente técnico, este cume provavelmente seria escalável. Não seria fácil, mas seria possível. Encostas íngremes, fendas escondidas, aproximações longas - sim. Ainda assim, quando comparado com o K2 ou o Annapurna, o perfil parece até relativamente “comportado”. O que mantém o Gangkhar Puensum intacto não se decide apenas no gelo; decide-se em cabeças, leis e mitos. Uma mistura de espiritualidade, política e um receio surpreendentemente pragmático de quebrar um tabu cultural.

Montanhas sagradas, regras rigorosas - porque é que o Butão diz “não”

O Butão funciona de maneira diferente de muitos vizinhos do Himalaia. Onde o Nepal ou o Tibete vêem no alpinismo uma fonte de receitas, o Butão escolhe deliberadamente limitar. A lógica é clara: menos visitantes, mas com mais profundidade na experiência. E, dentro desse quadro, o Gangkhar Puensum torna-se uma espécie de teste: uma montanha é um “equipamento” desportivo ou um santuário?

Para muitos butaneses, o cume não é um pedaço vazio de rocha e neve. Nas narrativas locais, vivem ali divindades protectoras, espíritos ancestrais e forças que não se deveriam tratar com crampons e logótipos de patrocinadores. Todos reconhecemos aquele instante em que uma fronteira não se explica com lógica, mas se impõe por dentro com absoluta nitidez: “daqui não se passa”. No caso do Gangkhar Puensum, essa linha interior transformou-se na linha oficial do Estado.

Nos anos seguintes, o país apertou as regras de forma gradual: primeiro, restrições acima de 8 000 pés (cerca de 2 400 m), depois acima de 6 000 metros e, por fim, uma proibição permanente de chegar ao cume do Gangkhar Puensum. Não se trata de um truque de comunicação: é uma decisão consciente contra um mercado bilionário. E sejamos honestos - poucos países pequenos, com montanhas desta grandeza, recusariam dinheiro com tanta consistência. É precisamente isso que torna esta história tão desconcertante - e tão fascinante.

Um erro comum entre observadores europeus ou norte-americanos é reduzir tudo a “superstição”. Só que, por trás, há uma pergunta muito contemporânea: temos mesmo de escalar, medir e transmitir em directo tudo o que é possível, apenas porque conseguimos? No Gangkhar Puensum, a resposta do Butão é: não. E esse não tem força legal. Mesmo que amanhã aparecesse a equipa mais forte do mundo, com um patrocínio de oito dígitos, o cume continuaria interdito. Uma afirmação colectiva contra a lógica dos recordes e dos rankings.

Entre erros de mapa, honra e renúncia - o que os alpinistas podem aprender

Quando se olha com atenção para as tentativas de expedição dos anos 1980, percebe-se depressa que o cume não ficou por conquistar só por motivos espirituais. Logo a tarefa de localizar com precisão o ponto mais alto foi um caos. Levantamentos diferentes “deslocavam” o suposto topo, e há indícios de que alguma expedição terá atingido um pico secundário sem o saber. Um pormenor quase absurdo à luz da obsessão moderna com dados de GPS.

Em 1985, uma equipa japonesa tentou a rota pela crista sul. Encontrou tempestades, risco de avalanche e uma topografia que atrapalhava a orientação. Foi obrigada a recuar pouco abaixo dos 7 000 metros. Mais tarde, outra equipa chegou a um ressalto do maciço, mas muito provavelmente não ao cume principal. O feito ficou sob suspeita, a comunidade debateu, o Butão manteve-se em silêncio. E a montanha? Continuou ali, indiferente às discussões humanas.

Do ponto de vista de um alpinista clássico, isto pode soar quase cruel: um cume lógico, relativamente “limpo”, tecnicamente exigente, com história recente e um impacto visual extraordinário - e depois essa barreira invisível feita de leis e crenças. Entre montanhistas, ouve-se em tom confessional a atracção do pensamento: “e se eu fosse o primeiro?” Ao mesmo tempo, ganha espaço uma outra voz, a de quem defende que abdicar também pode ser uma forma de alpinismo. Um cume que se decide não escalar, apesar de se poder, torna-se um espelho do próprio ego.

Como falar de uma montanha proibida - sem a profanar

Quem hoje olha para o Butão como viajante ou montanhista amador acaba depressa por esbarrar na mesma dúvida: como aproximar-se desta montanha sem ferir as regras - e sem ferir o respeito de quem lá vive? A resposta é simples, e talvez por isso mesmo reconfortante: caminhar, observar, escutar. Há percursos de trekking que oferecem vistas arrebatadoras sobre o maciço, sem transformar o cume num objectivo.

Muitos guias locais preferem contar histórias sobre os espíritos das montanhas do que discutir desníveis e tempos de subida. Pode-se desvalorizar isso - ou aceitar como convite para alargar o olhar. Ali, “sucesso” não precisa de ser medido em metros, mas nas pessoas encontradas e no caminho partilhado. Numa noite de tenda, por exemplo, com o vento a bater na lona e, muito acima, esse enorme guardião invisível. Sereno. Vigilante. Não conquistado.

Quem já se lançou a um cume com ambição a sério conhece o efeito de túnel: passa a existir apenas o ponto mais alto; tudo o resto vira cenário. No Butão, essa atitude pode facilmente soar a desrespeito. Um erro típico de muitos ocidentais é chegar com a ideia de que “um pouco de espiritualidade” é um ornamento simpático - mas que o objectivo real continua a ser a adrenalina pessoal. Essa postura choca de frente com a visão butanesa, onde a montanha é um ser com agência, não um projecto para “fechar” numa checklist.

“Algumas montanhas simplesmente não querem ser escaladas. E talvez precisemos exactamente dessas montanhas para nos lembrar que não somos o centro do universo”, disse-me uma vez um alpinista que já fez mais de dez expedições no Himalaia.

O que o Gangkhar Puensum nos pode ensinar, afinal, surpreende pela forma como se traz para o quotidiano:

  • Respeitar limites que não foram definidos por nós
  • Ter a liberdade de abdicar, de propósito, de um triunfo possível
  • Aceitar que nem todo o “espaço em branco” no mapa precisa de ser preenchido
  • Repensar o que é sucesso: não “ter estado lá em cima”, mas “ter estado lá de forma digna”
  • Reconhecer, em silêncio, que nem tudo tem de ser medido, publicado ou partilhado

Um cume não escalado num mundo que acha que já viu tudo

Vivemos numa época em que, a partir do sofá, se pode ver voos de drones sobre vales remotos, seguir transmissões do cume do Evereste e ampliar cada saliência rochosa no globo. Neste contexto, um “sete mil” por escalar parece quase um erro no sistema - uma pequena falha branca no fluxo mundial de dados. É por isso que o Gangkhar Puensum fica na cabeça de quem o descobre.

Há uma montanha que permanece, deliberadamente, sem conquista. Não por ser demasiado perigosa ou alta, mas porque um país, de forma colectiva, afirma: “aqui termina a vossa pretensão”. E porque o mundo, com os seus recordes, vídeos de desafio e tabelas de desempenho, tem respeitado esse não até hoje. Isto soa quase radicalmente moderno. Sugere um futuro em que não precisamos de levar tudo ao limite apenas porque a técnica o permite.

Talvez o Gangkhar Puensum seja um teste silencioso à nossa relação com fronteiras. O que acontece dentro de nós quando sabemos que existe algo grande, belo e inalcançável - e que nunca o vamos “ter”? Uns sentirão frustração e descartam o assunto. Outros, estranhamente, sentem alívio. Um consolo discreto por ainda haver lugares fora do nosso alcance. E talvez, daqui a algumas décadas, não contemos apenas aos nossos filhos os cumes onde estivemos, mas também aquele onde ninguém esteve. Por princípio.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Importância espiritual O Butão considera o Gangkhar Puensum uma montanha sagrada, associada a divindades protectoras Percebe porque o respeito cultural pesa mais do que a ambição desportiva
Proibição legal Interdição duradoura de cumes altos para expedições, em especial neste maciço Explica porque o cume permaneceu por escalar, embora fosse tecnicamente alcançável
Símbolo de renúncia consciente O cume não escalado como contraponto à mentalidade de “tudo é possível” Leva a repensar objectivos e limites, e a não ver a renúncia como fraqueza

FAQ:

  • Pergunta 1
    Qual é, ao certo, a altura do Gangkhar Puensum?
    Os valores variam conforme o método de medição, entre cerca de 7 500 e 7 570 metros. A precisão é limitada porque não existe uma medição feita a partir do próprio cume.
  • Pergunta 2
    Pode-se, pelo menos, contornar o Gangkhar Puensum a pé ou vê-lo de perto?
    Existem percursos de trekking com vistas impressionantes sobre o maciço. A subida ao cume, porém, continua interditada, tanto para locais como para estrangeiros.
  • Pergunta 3
    Houve ascensões secretas ou ilegais?
    Surgem rumores de tempos a tempos, mas faltam provas credíveis. Na comunidade de alpinismo, o cume continua a ser considerado não escalado.
  • Pergunta 4
    O Gangkhar Puensum é a montanha não escalada mais alta do planeta?
    Sim. Entre os cumes conhecidos e medidos, é considerado o mais alto onde, até ao momento, nunca esteve um ser humano.
  • Pergunta 5
    A proibição poderá mudar no futuro?
    Para já, isso parece pouco provável. A decisão está profundamente ligada à cultura e à política do Butão e tende a ser vista como expressão de identidade nacional, e não como regra temporária.

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