O Estado alpino, durante décadas visto como um comprador prudente e conservador de armamento, está agora no centro de um braço-de-ferro: manter o F-35 de fabrico norte-americano ou reabrir o dossier europeu com o Rafale e o Eurofighter, à medida que aumentam as dúvidas sobre custos, calendários e dependência política.
Como um acordo “fechado” deixou subitamente de o parecer
Durante meses, o Governo suíço repetiu ao parlamento e ao eleitorado a mesma tese: o Lockheed Martin F-35A seria a única escolha viável para substituir os F/A‑18 Hornet envelhecidos entre 2030–2032.
As autoridades sustentaram ainda que lançar um novo concurso demoraria, pelo menos, três anos. E, segundo essa leitura, tal atraso deixaria o espaço aéreo suíço perigosamente vulnerável quando os actuais aviões atingissem o fim da vida certificada.
A linha oficial era simples: sem o F‑35, não haveria uma defesa aérea suíça credível no início da década de 2030.
Esta narrativa foi abalada por fugas de informação relativas a uma reunião confidencial da comissão de segurança do parlamento federal, realizada a 2 de Julho de 2025.
De acordo com vários participantes, o chefe da Força Aérea Suíça, tenente-general Peter Merz, afirmou aos deputados que a frota de F/A‑18 poderia, afinal, manter-se operacional “sem problema” até, pelo menos, 2035 e, possivelmente, até 2037, desde que recebesse modernizações direccionadas.
A confirmar-se, esta avaliação mina a alegação governamental de que a urgência do calendário não deixava alternativa a um acordo rápido e centrado nos EUA.
A pergunta de €1.35 billion que paira sobre a factura do F‑35
O abalo político soma-se a um problema financeiro crescente. Documentos recentes partilhados com deputados indicam que o custo global do programa F‑35 já estará cerca de 1,3 mil milhões de francos suíços acima do que foi inicialmente apresentado - aproximadamente €1.35 billion aos câmbios actuais.
Esse montante não contempla as despesas de manutenção e operação ao longo dos 30 anos de vida útil do avião. Refere-se sobretudo a custos de apoio, infra-estruturas e treino associados à aquisição de 36 aeronaves.
| Item de custo | Montante estimado |
|---|---|
| Compra de 36 F‑35A | 6.035 bn CHF (≈ €6.3 bn) |
| Custos adicionais de logística e formação | +1.3 bn CHF (≈ €1.35 bn) |
| Extensão de vida dos F/A‑18 (alternativa) | 0.8–1 bn CHF (≈ €0.85–1.06 bn) |
Um membro da comissão, citado anonimamente pelos media suíços, expressou uma dúvida partilhada por vários colegas: como pode o F‑35 continuar a ser descrito como a única opção realista se uma extensão de vida dos F/A‑18, com um custo inferior ao desvio actual, é tecnicamente possível?
A opção “impossível” do Rafale começa a parecer muito menos rebuscada quando surgem discretamente mais €1.35 billion na conta do F‑35.
Um silêncio do general que diz muito
O general Merz não desmentiu publicamente as declarações que lhe são atribuídas. Em meios da defesa, essa ausência de negação tem significado: sugere que a sua análise informal sobre o potencial dos F/A‑18 poderá não encaixar totalmente na narrativa escolhida pelo Governo.
Segundo deputados presentes, Merz defendeu que prolongar o serviço de caças para além dos 30 anos é prática comum nas forças aéreas da NATO. Os próprios Estados Unidos continuam a modernizar e a operar F/A‑18 e F‑16 que entraram ao serviço durante a Guerra Fria.
No caso suíço, um pacote de extensão de vida deverá concentrar-se no reforço estrutural, em actualizações de aviônicos e em melhorias limitadas de radar e armamento. Para especialistas, isso bastaria para manter a frota credível por mais três a cinco anos.
Esses anos adicionais são o ponto crítico: criariam margem para uma nova avaliação de outras plataformas - incluindo o Dassault Rafale francês e o Eurofighter Typhoon - em vez de prender a Suíça ao ecossistema global do F‑35 no calendário ditado por Washington.
O Rafale e o Eurofighter voltam a entrar no enquadramento
Na competição original, Rafale e Eurofighter chegaram a ser finalistas. No desfecho, Berna escolheu o F‑35, argumentando que a furtividade, a conectividade e o equilíbrio preço/desempenho não tinham rival.
Os críticos dizem agora que essa conta foi demasiado estreita e optimista, sobretudo quanto aos custos ao longo do ciclo de vida e à dependência política. Vários deputados defendem abertamente uma segunda ronda de concurso.
- O Rafale é apresentado como um caça multiusos “maduro”, com boa fiabilidade e um historial de combate consistente.
- O Eurofighter oferece desempenho elevado e integração profunda com várias forças aéreas europeias de referência.
- Ambos incluem promessas de compensações industriais mais generosas para a indústria suíça.
Os defensores de uma alternativa europeia sustentam que a Suíça poderia assegurar parcerias tecnológicas, trabalho de manutenção e projectos de desenvolvimento conjunto em áreas como aviônicos, sensores e materiais aeroespaciais.
Na sua perspectiva, uma extensão de vida dos F/A‑18 bem desenhada libertaria espaço financeiro suficiente para negociar esse tipo de acordos, em vez de canalizar mais milhares de milhões para cadeias logísticas sediadas nos EUA.
Atrasos dos EUA no Patriot alimentam receios mais amplos de soberania
O dinheiro não é o único factor em causa. Decisões recentes dos EUA sobre outros sistemas de defesa alertaram políticos suíços para o risco estratégico de uma dependência excessiva de Washington.
O Pentágono adiou as entregas de baterias de defesa aérea Patriot destinadas à Suíça, invocando as necessidades urgentes da Ucrânia. Embora compreensível do ponto de vista norte-americano, a decisão inquietou Berna.
Os atrasos do Patriot tornaram-se um exemplo concreto do que acontece quando um pequeno país neutro depende da fila de produção de uma superpotência.
Alguns deputados receiam agora um cenário semelhante com o F‑35. Se a tensão na Europa ou na Ásia aumentar, as forças dos EUA e aliados maiores da NATO poderão ter prioridade no acesso a aeronaves, peças sobresselentes e suporte de software.
Mesmo um atraso curto complicaria os planos suíços de policiamento aéreo. Perturbações mais longas poderiam obrigar o país a voar com F/A‑18 prolongados e com os envelhecidos F‑5 Tiger durante mais tempo do que o previsto, ou a avançar para soluções intermédias apressadas.
Fendas de confiança entre o parlamento e o Conselho Federal
A disputa em curso vai além de especificações técnicas. Toca directamente na confiança entre o Conselho Federal - o executivo colegial de sete membros da Suíça - e um parlamento que já se sente posto de lado em dossiers-chave de segurança.
Os deputados queixam-se de terem sido alertados para riscos catastróficos caso o contrato do F‑35 não fosse assinado rapidamente, a um preço supostamente “fixo”. Agora, tomam conhecimento de que os custos subiram e de que existia, desde o início, uma solução de transição viável com os F/A‑18.
Cresce a pressão para chamar a antiga ministra da Defesa, Viola Amherd, de volta às comissões, para explicar a sequência de decisões e que informação foi disponibilizada em cada fase. Alguns partidos defendem a suspensão de partes do programa F‑35 enquanto as opções são reavaliadas.
Da parte do Governo, existe o receio de que reabrir o concurso possa desencadear penalizações, atrasar obras críticas de infra-estruturas e prejudicar a reputação da Suíça como contraparte previsível em contratos de defesa.
Como poderia ser, na prática, um regresso do Rafale
A questão imediata, para muitos observadores da aviação, é perceber se o Rafale tem mesmo hipóteses de conquistar um contrato que parecia fechado, avaliado em cerca de €6–7 billion, acrescido de décadas de receitas de manutenção.
Um cenário plausível, avançado por vários analistas europeus de defesa, seria o seguinte:
- A Suíça confirma formalmente um programa de extensão de vida dos F/A‑18 até cerca de 2035.
- É lançado um concurso restrito e acelerado, limitado a plataformas já avaliadas tecnicamente na Suíça: F‑35, Rafale, Eurofighter.
- Os consórcios de Paris e de Berlim–Londres–Roma reforçam as propostas com parcerias industriais mais fortes, pacotes de treino de pilotos e garantias de janelas de entrega.
- A Lockheed Martin responde revendo as suas propostas de compensações e de custos, procurando manter o acordo em vigor.
Nesse contexto, os principais trunfos do Rafale seriam a maturidade operacional, um custo de vida útil estimado mais baixo e uma relação política mais equilibrada com um Estado europeu. Na opinião pública suíça, a possibilidade de não depender totalmente de actualizações de software e de fluxos de dados dos EUA pode pesar.
Termos-chave e o que está em jogo por detrás do jargão dos caças
Há vários conceitos no centro deste debate, que ajudam a explicar por que razão os números e os prazos são tão determinantes:
Custo de posse ao longo de 30 anos. O preço de compra é apenas a entrada. Combustível, peças, actualizações de software, formação de pilotos e modernizações de meia-vida costumam custar várias vezes o valor inicial. É aqui que o F‑35, com o seu sistema logístico complexo e componentes classificados, pode tornar-se caro face a rivais não furtivos.
Compensações industriais. Quando um Estado compra caças no estrangeiro, é comum exigir que parte do valor regresse sob a forma de trabalho para empresas nacionais. Com Rafale ou Eurofighter, isso pode traduzir-se em firmas suíças a fabricar componentes, a manter motores ou a co-desenvolver electrónica. O programa F‑35 é muito mais centralizado em fábricas dos EUA e de países parceiros já existentes.
Soberania e controlo de dados. Os caças modernos são computadores voadores tanto quanto são células. Quem controla dados de missão, chaves de encriptação e actualizações de software condiciona o grau de autonomia de um país no emprego dos seus aviões. As opções europeias tendem a oferecer uma governação mais partilhada; os sistemas dos EUA podem ser mais restritivos, mesmo para parceiros próximos.
O que isto sinaliza para outras forças aéreas pequenas na Europa
A Suíça não é o único país não-NATO - ou um pequeno membro da NATO - a debater escolhas deste tipo. A Finlândia, a Bélgica, a Dinamarca e os Países Baixos já aderiram ao F‑35. Outros, como a Grécia e a Croácia, continuam a equilibrar alternativas norte-americanas e europeias.
Se Berna reabrir a competição ou conseguir impor melhores condições a Washington devido à pressão pública, isso será acompanhado de perto em todo o continente. Noutros ministérios da Defesa, poderá crescer a vontade de exigir repartições de custos mais transparentes, acordos de compensações mais robustos ou garantias mais claras de prioridade nas entregas.
Em contrapartida, uma reversão desordenada pode endurecer a postura de negociadores norte-americanos, que poderão pressionar compradores futuros a aceitar contratos mais rápidos e menos flexíveis, usando a Suíça como exemplo dissuasor.
Por agora, uma coisa tornou-se evidente: o que parecia uma escolha inevitável e quase tecnocrática pelo F‑35 transformou-se num caso político altamente carregado. E nesse teste, o Rafale - e, em menor grau, o Eurofighter - passou de nota de rodapé a tema central, alimentado por uma pergunta de €1.35 billion que não desaparece.
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