À medida que a população envelhece em todo o mundo, o número de casos de demência cresce a um ritmo acelerado. Continuam a faltar terapias capazes de travar de forma efetiva o declínio cognitivo. Por isso, a investigação tem olhado cada vez mais para escolhas do dia a dia - e, em particular, para a alimentação. Um estudo recente do Japão aponta agora para uma associação interessante: consumir queijo com regularidade pode reduzir de forma mensurável o risco de demência.
Demência como desafio global
Atualmente, mais de 50 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência em todo o mundo, e a Organização Mundial da Saúde prevê uma triplicação até 2050. Por detrás destes números estão famílias, cuidadores e sistemas de saúde que, em muitos locais, já funcionam perto do limite. E não é apenas a Europa: países asiáticos, como o Japão, também enfrentam um impacto particularmente elevado.
O Japão está entre as sociedades que envelhecem mais depressa. Lá, mais de uma em cada oito pessoas com mais de 65 anos já é afetada por demência. Como ainda não existe cura, ganha peso uma pergunta prática: que fatores de estilo de vida podem ser ajustados para reduzir o risco ou adiar o início da doença?
Uma coorte japonesa com quase 8.000 pessoas idosas mostra: mesmo consumir queijo uma a duas vezes por semana está associado a um risco de demência claramente mais baixo.
O que a investigação japonesa avaliou ao certo
A análise recorreu a dados da ampla JAGES (Japan Gerontological Evaluation Study), recolhidos entre 2019 e 2022. Foram incluídas 7.914 pessoas com 65 ou mais anos, a viver em casa e que, no início, não precisavam de qualquer classificação num sistema de cuidados continuados.
Para comparar perfis, as/os investigadoras/es separaram as/os participantes em dois grupos:
- pessoas que comiam queijo pelo menos uma vez por semana
- pessoas que, segundo as próprias, nunca consumiam queijo
Para reduzir a influência de variáveis que poderiam distorcer os resultados, a equipa aplicou um método estatístico chamado “emparelhamento por pontuação de propensão” (Propensity Score Matching). Assim, foi possível aproximar os grupos quanto a idade, sexo, rendimento, escolaridade, saúde autoavaliada e capacidade funcional no quotidiano. A intenção era clara: isolar, tanto quanto possível, o efeito do hábito de consumir queijo.
A ocorrência de demência foi identificada através de classificações oficiais associadas a apoios de cuidados e acompanhamento. No Japão, este é um indicador auxiliar reconhecido para refletir o início de uma limitação cognitiva com relevância prática.
Qual foi a dimensão do efeito observado?
Após cerca de três anos, surgiu uma diferença nítida:
- No grupo que consumia queijo, 134 em 3.914 pessoas desenvolveram demência (3,4 por cento).
- No grupo sem consumo de queijo, foram 176 em 3.910 pessoas (4,5 por cento).
Isto equivale a uma redução relativa do risco de cerca de 24 por cento para quem comia queijo pelo menos uma vez por semana. Quando se ajustou adicionalmente para o restante padrão alimentar, o valor diminuiu ligeiramente para cerca de 21 por cento - mas manteve-se estatisticamente significativo.
As/os autoras/es sublinham que estes resultados demonstram uma associação, não uma relação de causa-efeito comprovada. Ainda assim, a magnitude do efeito sugere que o queijo pode ter um papel próprio - e não ser apenas um marcador de comportamentos globalmente mais saudáveis.
Porque é que o queijo poderá beneficiar o cérebro
No artigo, são discutidos vários mecanismos biológicos plausíveis através dos quais o queijo poderia influenciar a saúde cerebral.
Vitaminas e vasos sanguíneos: uma possível proteção do cérebro
O queijo contém, entre outros nutrientes, vitamina K2, uma vitamina lipossolúvel com importância central para a saúde vascular. Contribui para direcionar o cálcio para os ossos, em vez de permitir a sua deposição nas artérias. Vasos estreitados ou calcificados aumentam a probabilidade de perturbações de irrigação no cérebro - um motor relevante da demência vascular.
Se a vitamina K2 ajudar a preservar a elasticidade vascular, isso poderá traduzir-se, de forma indireta, num efeito protetor para o cérebro. Para pessoas com hipertensão, diabetes ou doenças cardiovasculares, esta via é particularmente relevante.
Proteína, aminoácidos e péptidos bioativos
O queijo fornece proteína de elevada qualidade e aminoácidos essenciais, necessários ao funcionamento das células nervosas. Além disso, durante a maturação e a fermentação formam-se péptidos bioativos. Estudos laboratoriais sugerem que esses péptidos podem:
- ter ação anti-inflamatória
- atuar como antioxidantes, neutralizando radicais livres
- influenciar de forma favorável a tensão arterial e o metabolismo
A inflamação crónica e o stress oxidativo estão entre os fatores que aceleram o declínio cognitivo. Uma alimentação que atenue estes processos poderá, plausivelmente, desacelerar a progressão.
Microbiota intestinal como ponte entre o prato e a cabeça
Outra hipótese interessante envolve o intestino. Sobretudo queijos curados e fermentados - como Camembert ou Brie - contêm microrganismos que podem interagir com o ecossistema intestinal. Essas bactérias comunicam com o sistema nervoso central através do chamado eixo intestino–cérebro.
Há estudos que indicam que uma microbiota desequilibrada é frequente em doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer. Ainda não é definitivo se queijos com potencial probiótico conseguem contrariar este fenómeno, mas a evidência acumulada está a crescer.
Quem come queijo tende a ter um estilo de vida mais saudável
O estudo japonês também mostra um padrão adicional: quem consome queijo tende a escolher mais frequentemente outros alimentos vistos como “amigos do cérebro”, como:
- fruta
- legumes e verduras
- peixe
- carne magra
Em vários aspetos, este conjunto aproxima-se da alimentação mediterrânica, que há anos é associada a menor risco de demência. Por isso, a questão central mantém-se: o queijo é, por si só, um fator protetor ativo - ou apenas parte de um estilo de vida globalmente mais favorável?
Com os modelos estatísticos, as/os investigadoras/es tentaram descontar a influência do restante padrão alimentar. O efeito atribuído ao queijo enfraqueceu um pouco, mas continuou bem visível. Isso aponta para um contributo próprio, sem desvalorizar o papel de outras escolhas.
O queijo pode ser uma peça num estilo de vida que protege o cérebro - a par de atividade física, não fumar, controlo da tensão arterial e vida social ativa.
Com que frequência é “regular”?
Entre as pessoas que comiam queijo, a maioria referiu um consumo de uma a duas vezes por semana. No Japão, valores muito superiores foram raros, porque o queijo é menos comum do que, por exemplo, na Alemanha ou na Suíça.
Os dados sugerem que este nível moderado já pode criar diferenças a nível populacional. Se, em regiões onde o consumo de queijo é elevado, aumentar ainda mais traria benefícios adicionais, é algo que permanece em aberto.
Limitações dos dados: o que o estudo não consegue esclarecer
Apesar do sinal ser apelativo, trata-se de um estudo observacional com limitações importantes:
- o consumo de queijo foi perguntado apenas uma vez; não há registo de mudanças ao longo dos anos
- não foram recolhidas quantidades - 1 grama e 50 gramas por porção contam o mesmo na análise
- a identificação de demência baseia-se em dados administrativos, não em avaliações médicas detalhadas
- fatores genéticos de risco, como o APOE ε4, não foram medidos
- o contexto japonês, com baixo consumo de queijo, difere bastante do europeu
O último ponto merece atenção especial: numa população que, em média, consome apenas 2,7 quilogramas de queijo por ano, pequenas variações podem destacar-se mais. Em países onde o queijo é presença quase diária à mesa, o efeito pode ser menor ou manifestar-se de outra forma.
O que isto significa para o dia a dia em Portugal e na Europa
Concluir que comer mais fatias de queijo protege automaticamente contra a demência seria uma simplificação. Além de nutrientes valiosos, o queijo também fornece gordura saturada e calorias. Pessoas com níveis de lípidos no sangue muito elevados ou com doenças cardiovasculares devem ponderar a quantidade com o apoio de médicas/os e de aconselhamento nutricional.
Ainda assim, pode ser útil pensar no queijo como um componente intencional de uma alimentação equilibrada. Algumas ideias práticas incluem:
- um pequeno pedaço de queijo curado depois do almoço em dois dias por semana
- uma vez por semana, uma refeição ligeira ao jantar com pão integral, queijo, legumes e frutos secos
- ocasionalmente, preparar um prato com um pouco de feta ou parmesão em vez de opções ultraprocessadas
Outro ponto interessante: muitas/os participantes consumiam queijos mais processados, e não produtos de maior qualidade e longa cura. Mesmo assim, o efeito foi observado. Isto sugere que variantes simples podem contribuir positivamente - desde que integradas num padrão alimentar globalmente sensato.
Como a alimentação e o cérebro se influenciam a longo prazo
A demência não surge de um dia para o outro. É provável que o processo comece décadas antes de se notarem falhas de memória evidentes. Tudo o que protege os vasos sanguíneos, reduz inflamação e estabiliza o metabolismo tende a beneficiar o cérebro ao longo do tempo.
Além do queijo, são frequentemente apontados como favoráveis à saúde cognitiva:
- consumo regular de peixe, especialmente variedades gordas com ácidos gordos ómega-3
- muitos legumes e fruta, com destaque para bagas e folhas verdes
- gorduras vegetais como azeite ou óleo de colza
- cereais integrais em vez de farinha branca muito refinada
Em conjunto com atividade física, bom sono, estímulo mental e relações sociais, forma-se uma espécie de “escudo” protetor para o cérebro. À luz da análise japonesa, o queijo pode ser mais um elemento prático desse escudo - quando consumido com moderação.
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