As perturbações do comportamento alimentar podem causar danos graves no organismo, levando especialistas a defender que os serviços de saúde passem a reconhecer e a acompanhar melhor consequências de longo prazo que tendem a ser desvalorizadas.
Estudo no Reino Unido sobre perturbações do comportamento alimentar
Uma investigação de grande dimensão, coordenada por uma equipa da Universidade de Manchester, no Reino Unido, avaliou resultados a curto e a longo prazo em doentes com perturbações do comportamento alimentar (PCA). Os dados mostram que, mesmo 5 a 10 anos após o diagnóstico, estes doentes mantêm um risco acrescido de morte e de complicações como insuficiência renal, doença hepática, diabetes, osteoporose e problemas psiquiátricos, incluindo perturbação da personalidade e depressão.
Num editorial associado ao estudo, os investigadores em perturbações do comportamento alimentar Ethan Nella e Jennifer Couturier, ambos da Universidade McMaster, no Canadá - e sem participação no trabalho - sublinham: "As perturbações do comportamento alimentar afetam milhões de pessoas em todo o mundo, mas as suas consequências são pouco reconhecidas".
Acrescentam ainda: "Vários sistemas de órgãos são afetados pelas perturbações do comportamento alimentar, o que exige uma integração de cuidados para tratar adequadamente os doentes".
Amostra analisada e grupo de comparação
Foram examinados registos clínicos eletrónicos de 24,709 doentes com PCA. Deste total, 14.5 percent receberam um novo diagnóstico de anorexia nervosa, 20.6 percent de bulimia e 4.9 percent de binge eating disorder. Os restantes apresentavam uma perturbação do comportamento alimentar não especificada ou que não se enquadrava nas categorias anteriores. No conjunto, 89 percent dos doentes eram mulheres, e dois terços tinham entre 10 e 24 anos.
Para comparação, foram selecionados registos de 493,001 pessoas sem diagnóstico de PCA, mas com correspondência demográfica.
Mortalidade: risco persistente ao longo dos anos
No primeiro ano após o diagnóstico, o risco de morrer por qualquer causa foi mais de quatro vezes superior no grupo com PCA. Já as mortes por causas não naturais (como suicídio, overdose de drogas, acidente ou homicídio) foram cinco vezes mais prováveis do que na população sem PCA.
Depois da marca dos cinco anos, os doentes com PCA continuaram a registar mortalidade acima da observada noutros doentes, o que correspondeu a mais 43 mortes por qualquer causa por 10,000 indivíduos, e a mais 184 mortes não naturais por 100,000 indivíduos.
De forma ainda mais preocupante, ao fim de 10 anos estes valores aumentaram, correspondendo a 95 mortes em excesso por 10,000 indivíduos, e a 341 mortes não naturais por 100,000 indivíduos.
No primeiro ano, o risco de morte por suicídio foi quase 14 vezes superior entre doentes com PCA; mesmo após 10 anos, mantinha-se três vezes maior do que o de outras pessoas.
Complicações físicas e psiquiátricas após o diagnóstico
No primeiro ano após o diagnóstico, os doentes com PCA apresentaram também uma probabilidade seis vezes maior de desenvolver insuficiência renal e uma propensão quase sete vezes superior para doença hepática. E, mesmo passados dez anos, estes riscos continuavam elevados, claramente acima do verificado na população sem PCA.
Os investigadores concluem: "É essencial sensibilizar os profissionais de saúde para os efeitos duradouros das perturbações do comportamento alimentar e para a necessidade de apoio contínuo na gestão dos sintomas atuais e na recuperação".
A investigação e o editorial associado foram publicados na BMJ Medicine.
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