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Porque a intimidade vence o “profi” no amor, segundo Aaron Ben‑Zeev

Jovem casal sorridente a desenhar e estudar juntos numa mesa de cozinha iluminada pela luz natural.

Quem anda à procura de amor costuma fixar-se no aspeto, no carisma e na experiência na cama. É o tipo de combinação que parece eletrizante, funciona bem nas apps de encontros - mas que, surpreendentemente, raras vezes resiste à vida real. Um filósofo e investigador explica que características pesam mesmo numa relação e porque é que o “profi da sedução” perde, muitas vezes, para um perfil bem diferente.

O grande equívoco do parceiro perfeito

Muitas pessoas carregam na cabeça uma imagem relativamente definida do par ideal: atraente, divertido, seguro de si, experiente, confiante. Filmes românticos, programas de encontros na televisão e as redes sociais alimentam este modelo de forma contínua.

Só que os estudos sobre satisfação conjugal apontam noutra direção: este tipo de pessoa tende a brilhar sobretudo na fase inicial, com muita intensidade e novidade. Para que um casal se mantenha verdadeiramente feliz ao longo do tempo - e para que a proximidade, de facto, cresça - entra em jogo outra dimensão.

“As relações verdadeiramente gratificantes vivem menos de uma performance perfeita e mais de uma ligação autêntica, capaz de mudar.”

O filósofo e psicólogo israelita Aaron Ben‑Zeev, num texto para a “Psychology Today”, descreve com clareza o que distingue parceiros impressionantes no curto prazo daqueles com quem, anos depois, ainda apetece partilhar o pequeno-almoço.

Porque o “profi da relação” nem sempre é garantia de felicidade

No essencial, Ben‑Zeev separa dois tipos de parceiros que, à primeira vista, podem parecer igualmente atrativos - mas que no quotidiano produzem resultados completamente diferentes.

Tipo 1: o especialista em técnica

Esta pessoa sabe como flirtar, como beijar, como parecer sexy. Está habituada a encontros, domina “truques”, transmite segurança e controlo. É comum provocar uma atração forte, sobretudo no início.

  • sabe seduzir com facilidade
  • raramente fica nervoso em encontros
  • domina padrões e estratégias
  • dá grande prioridade à fisicalidade e ao impacto que causa

O reverso da medalha: esta competência pode criar momentos excitantes, mas não garante profundidade. Por fora, a relação até pode parecer perfeita; por dentro, pode ficar vazia.

Tipo 2: a pessoa com talento para a intimidade

O segundo perfil pode parecer menos chamativo. Nem sempre entra com o ar mais “cool”, não decora regras de dating e não gosta de joguinhos. A força está noutro lugar: na capacidade de construir intimidade.

Isso nota-se, por exemplo, porque esta pessoa

  • consegue falar com honestidade sobre o que sente
  • ouve a sério, em vez de estar apenas à espera do próximo efeito
  • faz perguntas quando não compreende algo
  • aceita mostrar insegurança e vulnerabilidade

“No início, quem se destaca costuma ser o pro em técnica. Mas muitas pessoas tornam-se felizes com quem aguenta e constrói proximidade.”

A longo prazo, esta forma de intimidade funciona como estabilizador. Ajuda a que os conflitos não sejam varridos para debaixo do tapete, aumenta a sensação de ser visto e mantém a relação viva.

Intimidade não é uma técnica - é uma postura

A intimidade não se aprende como um conjunto de truques de flirt. Tem menos a ver com métodos e mais com atitude interior. Quem permite intimidade aceita também o risco de rejeição, mal-entendidos e momentos embaraçosos - e, ainda assim, não foge desses riscos.

Pessoas com elevada “competência relacional” apresentam frequentemente três traços:

  • interessam-se genuinamente pelo que o outro sente, não apenas pelo que faz
  • ajustam-se ao longo do tempo, em vez de imporem “regras de relação” rígidas
  • conseguem suportar conversas desconfortáveis quando nelas está algo importante

É precisamente por isso que são mais raras do que se imagina: este tipo de proximidade exige energia, pede coragem e não acontece em piloto automático. Implica pequenas escolhas constantes - preferir a honestidade à fachada, o diálogo ao afastamento.

Compatibilidade vence perfeição

Outro ponto central da análise: não existe um “melhor parceiro” de forma objetiva. Duas pessoas excelentes podem estar lado a lado e, mesmo assim, falhar como casal - simplesmente porque não encaixam.

“O decisivo não é quão bom alguém é ‘por si’, mas quão bem vocês os dois funcionam juntos.”

Relações bem-sucedidas surgem onde ambos se ajustam e crescem em conjunto. Não porque um se anula, mas porque os dois aceitam sair da própria zona de conforto. Exemplos simples do dia a dia:

  • Uma pessoa mais introvertida acompanha o parceiro a uma festa, mas não fica até às quatro da manhã.
  • Um tipo espontâneo, por consideração, planeia um fim de semana com mais detalhe.
  • Alguém que odeia conflitos treina dizer críticas com mais clareza - sem magoar.

É assim que, pouco a pouco, nasce um estilo comum. Não perfeito, nem necessariamente instagramável, mas sustentável.

Instinto e razão: como escolhemos parceiros

Há estudos que mostram que as pessoas avaliam as suas relações de forma muito mais positiva ou negativa do que o seu sentir inconsciente sugere. Um estudo da Universidade da Florida, de 2013, concluiu: atitudes inconscientes em relação ao parceiro antecipam melhor a satisfação futura do que avaliações conscientes e verbalizadas.

Isto significa que a cabeça pode convencer-se de que “está tudo certo” - porque os factos externos alinham. Entretanto, o corpo já reage com stress, tensão ou retraimento. E também pode acontecer o inverso: a mente duvida (“É demasiado normal, demasiado aborrecido”), enquanto por dentro se sente uma calma profunda.

“Boas decisões no amor nascem quando instinto e razão conversam - não quando um cala o outro.”

Na prática, para escolher um parceiro, isto traduz-se em:

  • prestar atenção ao primeiro sentimento - sinto-me seguro, vivo, curioso?
  • depois, avaliar de forma consciente - o nosso quotidiano encaixa, os valores batem certo, os planos combinam?
  • levar a sério os sinais de alerta - independentemente de quão “perfeito” alguém pareça no papel

O tipo de parceiro que traz felicidade: vontade de aprender em vez de saber tudo

Ben‑Zeev resume, no fim, numa fórmula simples: o melhor parceiro não é quem já sabe tudo, mas quem continua disponível para aprender. E não de forma abstrata, mas de modo muito concreto, com uma pessoa específica: contigo.

É típico destes parceiros voltarem a perguntar, repetidas vezes:

  • “O que precisas hoje?” em vez de “Antes isto chegava-te.”
  • “Como estás, a sério?” em vez de “Vai-se indo, está tudo bem.”
  • “O que podemos fazer de outra forma?” em vez de “Eu sou assim.”

Uma relação em que ambos aprendem muda sempre um pouco. Os papéis ajustam-se, as rotinas afinam-se, as necessidades voltam a ser negociadas. E é precisamente esse movimento que mantém a ligação viva.

O que isto significa, na prática, para o teu dating e para a tua forma de estar numa relação

Quem leva estas ideias a sério começa a olhar de outra maneira, tanto ao conhecer alguém como no dia a dia. Em vez de ficar preso apenas à pergunta “Acho esta pessoa sexy?”, surgem outras, mais determinantes:

  • consigo ser honesto com esta pessoa sem medo?
  • ela interessa-se pela minha vida interior - ou só pela fachada?
  • depois de estar com ela, sinto-me mais fortalecido ou mais drenado?
  • existe vontade de ir ao encontro um do outro, e não apenas na fase inicial?

Para casais de longa data, a mensagem também é clara: intimidade não é um “nível” que se atinge e fica resolvido. Precisa de ser cuidada - com conversas, experiências em comum e também com discussões que esclarecem algo, em vez de apenas ferirem.

Riscos, oportunidades e um olhar realista sobre o amor

Ao escolher proximidade verdadeira, a pessoa torna-se mais vulnerável. Os conflitos parecem mais intensos, e as separações doem mais. Há quem se proteja mantendo as relações na superfície - muita diversão, pouca profundidade.

O custo, porém, é que sem profundidade falta, com o tempo, sustentação interna. É possível passar anos numa parceria bonita e funcional, mas emocionalmente vazia. O preço é elevado: solidão por dentro apesar da relação, comparação constante com os outros, e a sensação de não ser realmente conhecido.

“O tipo de parceiro que faz verdadeiramente feliz raramente é o mais barulhento - é aquele com quem a honestidade parece mais fácil do que o espetáculo.”

Quando os critérios mudam nesse sentido, a atenção afasta-se da pura performance e aproxima-se de pessoas com quem é possível crescer. Pode parecer menos impressionante ao início, mas no quotidiano leva mais longe: menos drama, mais profundidade, mais felicidade real - mesmo quando a vida não corre de forma instagramável.

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