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H5N1 está de volta: OMS, Trump, cortes na EPA, CDC e USAID e o risco em 2026

Cientista numa sala de laboratório a examinar uma placa de petri com desenho branco, usando luvas e bata branca.

Não queremos soar a profetas da desgraça, mas os dados que chegam de vários laboratórios pelo mundo fora não são animadores. O maior risco seria fingir que não existem: o vírus H5N1 voltou - e está mais resistente do que nunca.

Depois de a crista da onda do COVID ter passado, ficou pelo menos uma lição: em virologia, o preço de não agir é quase sempre superior ao custo de prevenir. Hoje a pandemia parece distante; passaram cinco anos desde que a China comunicou ao mundo aquela “estranha gripe” que começou por infectar cidadãos em Wuhan. Com perto de 7,1 milhões de mortos a nível global (estimativas conservadoras da OMS), o COVID acabou por ser controlado sobretudo graças à vacinação, à sensibilização e às medidas de confinamento. Foi um saldo pesado - ainda assim, poderia ter sido muito pior se a resposta tivesse chegado tarde. É humano querer riscar esse capítulo; porém, quando viramos a página depressa demais, esquecemos aprendizagens que custaram caro.

O alerta da OMS e a erosão da vigilância global

A própria OMS já tinha deixado o aviso em agosto de 2024, ao identificar o H5N1 (e outros subtipos de gripe aviária) como “agente patogénico prioritário”, colocando-o entre as ameaças mais graves para a saúde pública. Pouco mais de um ano e meio depois, caímos no mecanismo do esquecimento institucional. As redes de vigilância mundial, fragilizadas por cortes orçamentais, deixam o vírus escapar precisamente numa fase em que nunca circulou com tanta intensidade. Será que partimos o termómetro ao mesmo tempo que a febre começa a subir?

H5N1: a mutação a mais

No fim dos anos 2000, o vírus limitava-se essencialmente às aves, dizimando galinheiros inteiros. Desde 2020, porém, uma nova estirpe (o clado 2.3.4.4b) espalhou-se por todos os continentes e passou a infectar mamíferos sem grande dificuldade. Já foi identificado em 74 espécies diferentes: elefantes-marinhos, leões-marinhos, ursos-polares, vacas leiteiras, gatos domésticos… Sempre que consegue instalar-se numa nova espécie, usa-a como plataforma para tentar ultrapassar as defesas imunológicas de outras. Por enquanto, a transmissão entre humanos continua a ser difícil, mas cada infeção num novo mamífero funciona como um “treino” genético para se adaptar ao nosso organismo.

Mamíferos e cadeia alimentar: o leite como via de disseminação

Nos efetivos leiteiros dos Estados Unidos, o vírus beneficia de um vetor de propagação particularmente eficiente - e temido por virologistas: o leite. O facto de ter sido detetado em embalagens vendidas no comércio mostra que já se infiltrou na nossa cadeia alimentar.

Casos humanos ainda raros, letalidade muito elevada

Felizmente, as infeções em humanos continuam a surgir de forma pontual, já que a OMS apenas contabilizou 992 casos desde 2003. Ainda assim, a taxa de mortalidade assusta: 50 %, face a 0,5 a 0,1 % no COVID-19 no pico da pandemia. Ou seja, por agora é menos contagioso, mas clinicamente muito mais devastador. E quanto mais continuar a mutar e a adaptar-se, mais se reduz a barreira entre espécies - numa altura em que a nossa imunidade contra esta estirpe é muito baixa.

O preço da ignorância: porque 2026 pode sair-nos caro

Para lá da capacidade de mutação, o nosso “escudo” sanitário - sustentado sobretudo por vigilância epidemiológica contínua e por cooperação científica internacional - revela sinais preocupantes de desgaste. Se hoje o cenário pode ser considerado perigoso, importa perceber uma diferença essencial na gestão do risco: a catástrofe não é um fenómeno natural; é o resultado de uma vulnerabilidade construída.

Aléa vs. vulnerabilidade: quando o contexto transforma risco em catástrofe

Daí ser indispensável separar o aléa (um acontecimento externo, imprevisível e potencialmente perigoso) da vulnerabilidade (a fragilidade de uma sociedade perante esse acontecimento). Um evento não se torna catástrofe apenas porque o aléa é intenso; torna-se catástrofe quando ocorre num contexto onde já não pode ser controlado. Uma tempestade no meio do deserto não é uma catástrofe; passa a sê-lo quando atinge uma cidade mal preparada.

O mesmo raciocínio aplica-se à virologia: o risco atual resulta do potencial de transmissão do H5N1 (o aléa) e da permeabilidade dos nossos sistemas de vigilância (a vulnerabilidade). E, neste momento, estamos no centro desse problema: as agências norte-americanas que normalmente funcionam como barreira - e como guardiãs, de facto, da saúde pública mundial - estão a ser desmanteladas desde que Trump regressou ao poder.

Cortes na EPA, CDC e USAID e o efeito dominó na deteção precoce

A EPA (Environmental Protection Agency), peça central na monitorização do vírus na fauna selvagem, viu o orçamento cair de 9,14 mil milhões de dólares para 4,16 mil milhões, uma redução de 54 %. O efetivo também será reduzido em 1 254 trabalhadores a tempo inteiro e, segundo um documento da própria agência, as suas missões deixarão de estar focadas na vigilância epidemiológica ambiental.

O mesmo acontece com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), frequentemente descrito como o “cérebro” global da deteção epidemiológica: este relatório refere que o seu orçamento “diminuirá de 53 % em relação a 2024”. Dezenas de programas de vigilância mundial de doenças serão simplesmente eliminados, em nome da eficiência orçamental.

Já a USAID (United States Agency for International Development), responsável por apoio ao desenvolvimento e ajuda humanitária no estrangeiro, sofreu em alguns programas de assistência internacional “um corte drástico de 85 %”, de acordo com este relatório. Ao retirar quase 10 mil milhões de dólares à ajuda em saúde global, os Estados Unidos abdicam do papel de coordenação, deixando países em desenvolvimento (que, por sinal, são zonas de passagem críticas para aves migratórias portadoras do vírus) sem recursos suficientes para detetar as primeiras transmissões humanas.

Poder-se-ia esperar que a Europa ocupasse esse espaço, mas não é isso que se observa. Com o foco no rearmamento e nas tensões geopolíticas, países como França, Alemanha e Reino Unido reduziram em conjunto 13,5 mil milhões de dólares os seus orçamentos de solidariedade internacional.

Em teoria, seria perfeitamente possível organizar uma resposta mundial ao H5N1, mas na prática estamos a oferecer ao vírus o cenário ideal para se expandir: sociedades divididas e surdas aos avisos. Mesmo que as autoridades classifiquem como “baixo” o risco de uma pandemia humana iminente, esse rótulo não pode ser confundido com risco nulo. A perceção pública fica enviesada: como ainda não houve uma hecatombe, confundimos a ausência de crise sanitária com a *ausência de perigo. E este tipo de cegueira nem sempre é culpa nossa, porque o debate é contaminado por comunicação política deliberadamente orientada para o curtíssimo prazo económico. Se já ninguém toca o alarme, não estará o verdadeiro perigo *na nossa teimosia em deixar de ver o vírus**, mais do que no vírus em si?

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